Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

A entrevista desta semana é com o aclamado Diretor de Fotografia Christian Lesage, filho do inesquecível cineasta Romain Lesage e responsável pela fotografia de inúmeros comerciais, curtas (Memória de Roberto Henkin, por exemplo), e de longas (o belíssimo Verdes Anos), a produção nacional O Mentiroso (estrelado pelo premiado Angel Palomero e com participação especial de Paulo José)



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O que o levou a se tornar cineasta, Christian?
Lesage: Desde pequeno, frequentei os estúdios, pois meu pai era diretor e, durante um certo tempo, sócio da Cinecastro, no Rio de Janeiro, uma das primeiras produtoras de comerciais do Brasil (Lembra do "Versão brasileira, Cinecastro, Rio de Janeiro"?). Lá, ele dirigiu centenas de comerciais, e eu apareci em diversos deles. Em 1961, ele produziu e dirigiu Pluft, o Fantasminha, que foi meu primeiro contato com cinema, e uma época inesquecível (eu tinha seis anos). Depois disso, meu pai veio morar em São Paulo, e o cinema tornou-se algo um pouco mais distante.
No entanto, na adolescência, nasceu minha paixão pela fotografia: tinha diversos amigos fotógrafos, tínhamos laboratórios em casa, fiz alguns cursos, trabalhei em revistas, e um dia (eu tinha dezoito anos) meu pai me chamou para fotografar um audio visual. (Ele tinha aberto uma produtora em São Paulo, a Ciclo Filmes, que produzia documentários e audio visuais, daqueles em slide).Era sobre a inauguração do Aeroporto de Manaus, e deu tão certo que ele me chamou para fotografar seus documentários em 35mm (Era época de "milagre econômico", fazíamos documentários sobre grandes obras amazônicas, hidrelétricas, estradas, etc.).
Em 1981, ele produziu outro longa: P.S.Post-Scriptum, do qual fui assistente de direção (na verdade, assistente de tudo, inclusive de direção: até dirigir Kombi eu dirigi). Foi a partir do P.S. que tivemos contato com os então superoitistas de Porto Alegre, o Giba Assis Brasil, o Carlos Gerbase, que na época estavam tocando seu primeiro projeto de longa em 35mm, Verdes Anos.Eles já tinham toda a equipe, só faltava o fotógrafo,quem sabe o Lesage não conhecia alguém.? Acabei sendo convencido por meu pai, e embarquei, meio relutante, para Porto Alegre, para fotografar meu primeiro longa! Só eu sabia, na projeção do primeiro copião, o motivo de ser eu o mais exultante com o resultado: eu nunca tinha feito algo tão complexo, e toda a "experiência" que eu tinha em fotografia de ficção,(isto é, de fotografia aplicada à dramaturgia, por oposição a fotografia de documentário) se resumia a observar o grande Peter Overbeck, fotógrafo do P.S., em ação.
A partir daí, passei a trabalhar em publicidade em Porto Alegre, cidade que adotei, onde me casei e nasceu meu primeiro filho. Em 1986, depois de muita publicidade e vários curtas e mais um longa, voltei a São Paulo, onde trabalho em publicidade até hoje; de 86 pra cá, tem sido: muita publicidade, alguns curtas, e, em 1996, um longa, o Supercolosso, do Luís Ferré, filme infantil que me deu imenso prazer de fazer e do qual me orgulho muito, mas que teve uma curta carreira, por conta de um lançamento inadequado.


SC:
Como funciona o seu processo criativo?
Lesage: Na verdade, não "escolho" o visual de um projeto.Para mim, este visual é fruto de um processo que envolve o diretor, o diretor de arte e o diretor de fotografia; nenhum dos três determina sózinho que "cara" vai ter o filme, mas é das idéias apresentadas pelos três, apoiadas pelas soluções técnicas apresentadas pelo fotógrafo, que surgirá o aspecto final da obra.
E é aí que entra o tal "processo criativo": no meu caso, este processo se dá muito mais durante a própria filmagem, do que "a priori", isto é, não começo a filmar tendo na cabeça a imagem exata de como vai aparecer cada cena do filme na tela; tenho uma idéia geral, e partir desta idéia vou incorporando coisas que surgem durante o processo, idéias despertadas por determinadas situações,etc. Acho que é importante estar atento ao acaso, o que não quer dizer que vou filmando ao acaso, e sim que procuro ficar atento a pequenos acasos que poderiam passar desapercebidos, mas que quando incorporados ao trabalho, deixam de ser acaso e se tornam parte da criação.

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