Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

A entrevista desta semana foi feita com um dos mais ativos Diretores de Fotografia do Brasil, Antonio Luis Mendes. Só para citar alguns de seus trabalhos: "Filhos e Amantes" (de Francisco Ramalho Jr.), "Ópera do Malandro" (de Ruy Guerra, um dos favoritos deste cronista), "A Child From The South" (estrelada pelo posteriormente indicado ao Oscar Pete Postlethwaite), a superprodução "Guerra de Canudos", entre outros.

Site de Cinema: Fale aos leitores do site do processo que o levou a entrar no mundo do cinema.
Antonio Luis Mendes:
A primeira coisa que me vem à cabeça é um pequeno projetor, muito, muito simples, que me foi dado por meu pai - não sei por que motivo, acho que era meu aniversário - quando eu tinha uns cinco anos de idade. As imagens mudas, de um desenho animado em preto e branco, projetadas na parede da sala me fascinaram. O cheiro da tinta do corpo de projetor, esquentada pela lâmpada, ainda existe para mim. No dia seguinte, com uma chave de fenda, fui pego tentando abrir o equipamento buscando entender o mecanismo criador daquelas maravilhas. Bom, esta foi, com certeza, a mais remota das minhas motivações. Lembrando, assim, começam a aparecer outras como, por exemplo, a minha primeira escola - o Jardim de Infância - que tinha como uma das atividades, sessões de cinema onde, pela primeira vez assisti Carlitos, Buster Keaton, o Gordo e o Magro. E tudo foi indo... Com onze, doze anos, o cinema passa, mais regularmente, a participar da minha vida, mas como, na época, para todos os garotos dessa idade: matinês nos finais de semana com os seriados do "Flash Gordon", as chanchadas com Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Zezé Macedo, Dercy Gonçalves e os filmes de "cowboy". Gostava de todos, as imagens, indistintamente, me deixavam deslumbrado, as figuras luminosas movimentando-se. Era aquela coisa de sonho e a curiosidade de como aquilo se fazia. Um dia, caiu-me nas mãos, "O Cinema, Sua Arte e Sua Técnica" , um livro de um francês chamado George Sadoul. Devorei-o. Li de ponta a ponta uma três vezes e, logo depois, o "História do Cinema Mundial", em 2 volumes, do mesmo autor. O Cinema tomava conta de mim de uma forma diferente e que eu não conseguia compartilhar com os meus amigos da época com os quais jogava pelada, paquerava as meninas, etc. O primeiro livro me deu a compreensão dos mecanismos técnicos de captação da imagem em movimento e a sua linguagem, o segundo a importância cultural do cinema. Posso dizer que estes dois livros foram básicos no processo que me levou a desenvolver o tipo de trabalho que acabei desenvolvendo. Outros livros se seguiram e, principalmente, os filmes que assistia, às vezes, absolutamente sózinho, no "Grill", um cinema que passava filmes de arte, aquí em Niterói. Aí, pela primeira vez, assisti Bergman - claro, não entendia nada de uma forma consciente, mas intuía o respeito do autor pela imagem. Até então, entretanto, não tinha, ainda definido o que fazer da vida. Na minha família não tinha ninguém que desenvolvesse qualquer tipo de atividade artística e eu não conhecia ninguém que o fizesse. Tanto que, o primeiro vestibular que fiz foi para economia. Foi aí, então, que na efervescência do movimento estudantil no ambiente universitário, encontrei pessoas que gostavam de cinema de uma forma que organizava as informações que eu, confusamente, tinha, sobre o assunto. Veio, então, a atividade cineclubista e a idéia de fazer um filme. Fizemos. "O Barro", 16mm, preto e branco. Conheci Nelson Pereira dos Santos, interrompi economia, fiz vestibular para Cinema na UFF - primeira turma -, que não completei e fui fazer assistência de produção no "Como Era Gostoso o Meu Francês" - meu primeiro trabalho profissional. Neste filme, dirigia a fotografia, o grande Dib Lufti e o seu assistente Ronaldo Nunes. Os dois de uma maneira muito peculiar me mostraram os primeiros caminhos do trabalho que acabei abraçando. Nunca quis, de verdade, dirigir um filme. Fotografar me dá um grande prazer e, de certa maneira, realiza o que eu buscava, criança, com uma chave de fenda, ao tentar abrir o projetor que meu pai me tinha dado. Posteriormente, já no exercício da atividade, aprendi a apreciar os trabalhos de profissionais da área e, a minha maneira, vou tentando emulá-los. Gosto do Dib Lufti ("Como era Gostoso o meu Francês", também fotografou "Fome de Amor" entre outros clássicos), do Lauro Escorel ("Toda a Nudez Será Castigada", "Quilombo", etc) do Affonso Beato ("Para Viver Um Grande Amor", "Além da Paixão", etc) do Mário Carneiro ("Todas as Mulheres do Mundo", "Porto das Caixas", etc) dos jovens Breno Silveira ("Carlota Joaquina", "Eu, Tu, Eles") e Marcelo Durst, ("Ação Entre Amigos", "Estorvo", etc) do meu contemporâneo, Walter Carvalho ("A Difícil Viagem", "Pedro Mico", etc) Da turma de fora, cito Sven Nykvist ("Persona", "Pretty Baby", etc), Phillipe Rousselot ("A Floresta das Esmeraldas", "A Lua na Sarjeta", etc), Henri Alekan ("Asas do Desejo" e "O Estado das Coisas"), acima de todos, o já falecido, Nestor Almendros ("Cinzas no Paraíso", "O Último Metrô", etc).

SC: Como funciona o seu processo criativo, Antonio?
Antonio L. Mendes: Na minha forma de trabalhar, a concepção visual de um filme cumpre várias etapas, sendo umas de caráter subjetivo e outras de caráter objetivo. A primeira etapa é, evidentemente, a leitura do roteiro, que eu faço uma corrida, na qual busco me embeber da estória, "sentir a pulsação", me emocionar. A segunda leitura já é mais técnica, consequência da primeira, quando procuro visualizar a representação cinematográfica da primeira leitura. Até este momento, tudo é fantasia, está tudo num plano subjetivo.

 

Nota do Editor: Os filmes mencionados nas respostas foram incluídos por Marco Freitas para auxiliar o público que eventualmente não conheça os trabalhos dos Diretores de Fotografia citados.

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