Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

Affonso Beato é um exemplo de competência Brasileira "for export": alternando sua Direção de Fotografia em produções nacionais ("O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro", "Terra dos Índios", "Pindorama", "Orfeu", etc) com filmes internacionais de grande prestígio ("Cinco Dias, Cinco Noites", realizado em Portugal, constante colaborador do Americano Jim McBride - "Pronto", "A Fera do Rock", "Terra Prometida" do Chileno Miguel Littin e fotógrafo favorito de Pedro Almodóvar nos três mais recentes filmes do cineasta espanhol). Seu estilo camaleônico de adequar a sua técnica a diferentes gêneros cinematográficos o colocaram num patamar bastante privilegiado de artistas MADE IN BRASIL/BRAZIL. Quando o www.sitedecinema.com.br foi entrevistá-lo, uma das primeiras coisas que achamos interessante descobrir foi como se deu o envolvimento dele ao lado do Argentino Ricardo Aronovich nas filmagens de "Christmas Evil" um dos mais cultuados suspenses dos últimos 20 anos, adorado por uma legião de fãs ao redor do mundo (entre eles, o crítico Leonard Maltin e o Diretor de "Mamãe é de Morte" e "Pink Flamingos", John Waters).


cena de "O Dragão Da Maldade Contra O santo Guerreiro", fotografado por Beato


Beato fotografando
"The Informant"
em Dublin, Irlanda

Site de Cinema: Como foi sua experiência de trabalhar com o argentino Ricardo Aronovich ("Os Fuzis", "Vereda da Salvação", "Tempo Redescoberto", etc) e com o jovem Lewis Jackson no cult-movie "Christmas Evil"?
Affonso Beato: Isso aí foi uma confusão, deixa eu esclarecer o que foi isso... é o seguinte... o diretor Lewis Jackson, que é um amigo meu, me convidou para fazer esse filme, mas o que aconteceu é que eu já estava na preparação de um filme do Bruno Barreto, o "Luiza Homem".

SC: Que acabou sendo dirigido anos depois pelo irmão dele (Fábio Barreto, de "India, A Filha do Sol", o elogiadíssimo "Quatrilho", etc), com o José Tadeu Ribeiro fotografando, certo?
Affonso Beato: Exatamente. Aí, eu estava preparando o "Luzia Homem", mas logo quando nós voltamos para buscar o equipamento, houve uma grande enchente em Quixadá, no Ceará, e tudo aquilo que nos esperávamos que fosse seco, enfim... tinha mudado totalmente de visual. O filme então, foi suspenso, e o projeto abandonado*. Então, como eu estava envolvido com o "Luzia", eu indiquei o nome do Ricardo, e ele acabou fazendo o "Cristmas Evil" nos Estados Unidos. Mais tarde eu voltei, e aí o Ricardo, por motivo de força maior e aí me pediu para eu terminar o filme, assim eu terminei fotografando o filme do Lewis, entende?

SC: Ah, tá... eu fiquei sabendo que o Lewis Jackson foi atrás do Ricardo Aronovich em Vienna, naquela época, para convidá-lo para fazer o "Christmas Evil".
Affonso Beato: É, pode ser...

SC: Provavelmente estava filmando com Alain Resnais.
Affonso Beato: É, pois o Ricardo fotografou com o Resnais, trabalhos como...

SC: "Providence" é deles, né?
Affonso Beato: Ah, isso mesmo.

SC: Mudando de assunto, Affonso, eu gostaria que falasse como se dá o teu processo criativo, de projeto para projeto, revelando diferentes "facetas" de Diretor de Fotografia, pois se pode perceber que a cada projeto mudas o teu estilo"; por exemplo, a fotografia de "Big Easy"/"Acerto de Contas" é bem diferente de outro trabalho seu com o mesmo diretor, "The Flemish Board"/"Xeque-Mate", por exemplo. Portanto, como adaptas a tua fotografia de projeto para projeto?
Affonso Beato: Essa é uma pergunta muito boa, pois são duas, enfim... eu acho que há duas escolas de Diretor de Fotografia. Assim, no começo da minha carreira, eu estudei muito História da Arte, Pintura, Crítica da Arte, assim você fica conhecendo grandes movimentos da Pintura e Arte em geral. Enfim, o processo de criação do Diretor de Fotografia é muito específico, entende... antes do Cinema nunca na história da Arte houve um tipo de criação que é a feita em conjunto. O artista ou autor da obra, não é totalmente solitário, nem tem total livre arbítrio, enfim, ele não é apenas guiado somente pelos seus impulsos, cultura, sensibilidade... ele está ali fazendo uma obra de massa e ele trabalha a partir do roteiro e fatores assim que como você sabe, o próprio projeto pede. Na história da cinematografia que quando eu comecei já tinha seus sessenta anos, eu vi que havia duas correntes de Direção de Fotografia: um era aquele que levava a qualquer filme, uma característica estilística muito grande...

SC: Desculpa te interromper, mas te referes aos grandes fotógrafos alemães, tipo Greg Tolland ou o...
Affonso Beato: Deixa, deixa eu falar... não, não, eu acho que começa com Raoul Coutard ("La Passe du Diable", "Jules & Jim", etc), na verdade tem vários, mas se você vê os trabalhos dele com Jean-Luc Godard eles criaram uma forma, já quando ele trabalhou com outros cineastas, inclusive quando ele próprio dirigiu um filme no Vietnam ("Hoa-Binh"), o seu trabalho deixa muito a desejar, talvez pelo fato de ele estiver muito ligado àquilo. Eu não sou contra essa corrente, essa corrente simplesmente existe. Eu vejo como outro caso o Vittorio Storaro, ele tem uma personalidade muito forte e uma necessidade, uma criatividade muito grande e ele muito acaba fazendo o que ele quer, entende? Isso fez com que ele fotografasse filmes lindos com o Bernardo Bertolucci e outros filmes como "Apocalipse Now" com Francis Coppola... não é que ele faça sempre a mesma coisa, mas você sempre uma marca muito grande dele nos seus filmes. Isso às vezes, contribui e às vezes, eu acho, atrapalha. Eu sou de outra escola... eu estou vendo que você conhece bastante história do Cinema, Direção de Fotografia...

SC: Tento...
Affonso Beato:...você deve conhecer o... Raoul, não, o... como é...

SC: Henri Alekan?
Affonso Beato: Alekan é fantástico, mas eu me refiro ao... Rottuno! Giuseppe Rotunno!..

SC: Claro, por sinal o melhor trabalho dele na minha opinião é "Popeye"que ele fez para Robert Altman, um filme que por sinal, muita gente não dá valor...
Affonso Beato: É, tem o "Popeye", "All that Jazz",...

SC: Trabalhou com Fellini...
Affonso Beato: Pois é, exatamente! Se você olhar a filmografia dele, você verá o exemplo do que estou falando, entende? O Rottuno é um artista que sempre se dedicou a interpretar a obra, a serví-la...ele tem "Satiricon", "Il Gattopardo", "Bellissima", ele tem coisas que você não imagina... ele tem aquele filme americano o... "On The Beach", ele foi um dos primeiros fotógrafos estrangeiros a trabalhar nos Estados Unidos. Um dia eu estava em Nova York assistindo TV e - eu gosto muito daquele filme, e esse clássico, "On The Beach" (direção: Stanley Kramer), como eu já disse, eu gosto muito desse filme, mas eu nunca tinha prestado atenção nos créditos. Eu estava lá me surpreendendo com um plano e outro, admirando os enquadramentos maravilhosos, fui ver e era do Giuseppe Rotunno. Isso exemplifica exatamente o que eu estou te falando. Então se você me perguntou qual é o meu processo é esse, ou seja, de interpretar, evidentemente com o Diretor, o que a obra pede e me adaptar à ela... usando o que eu sei, ou então coisas que eu vou buscar, pesquisas que eu faça com pinturas ou fotografias, para encontrar o que eu precise para realizar o trabalho da melhor forma possível.

ATENÇÃO: Títulos citados entre parênteses foram adicionados por Marco Freitas para auxiliar pessoas que desconheçam os trabalhos dos cineastas mencionados na entrevista.

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