Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

Nesta semana, o entrevistado é o elogiadíssimo José Guerra, cameraman e Diretor de Fotografia de filmes no Brasil, Argentina e Europa. Aproveitando o recente lançamento nas videolocadoras de todo o país de seu trabalho Cinematográfico "Outras Histórias", o SITE DE CINEMA bateu um papo com ele.

 

Site de Cinema: O que o levou a seguir carreira no Cinema?
José Guerra: Meu gosto pelo cinema vem de muito tempo. Era tipo rato de cinema, via de tudo, apoiado por um tio que era cinéfilo; Aos 15 anos fiz um curso de fotografia (still) na ABAF e assim comecei a me interessar pela fotografia cinematográfica. Não sabia bem, mas era a associação entre o movimento da camera dos grandes mestres com o still dos mestres de fotografia que lá davam aulas, gente como George Racz e Maureen Bisilliat. Dai surgiu o interesse pelo enquadramento que para mim é a base de tudo. SABER ENQUADRAR esse é o mistério. Aos 19 anos comecei a fazer assistência de camera. Fui péssimo, mas comecei a me inspirar num sujeito maravilhoso e considero talvez o melhor operador de camera do mundo, DIB LUFTI ("Como era Gostoso o Meu Francês", "Joanna Francesa", etc). Embarquei para o Canadá onde fiquei estudando e começei a fazer câmera para a National Geographic, quase um ano procurando e filmando bichinhos estranhos. Passei por NY e fiz um estágio com outro grande mestre da fotografia, Haskell Wexler (fotógrafo de obras-primas como 'Amargo Regresso', ''Quem tem Medo de Virginia Woolf?', 'Estranho no Ninho', etc) Voltei ao Brasil e fui ser cinegrafista para a TVE onde fiz meu primeiro contato com o vídeo. Fui operador de câmera da série SITIO do PICA PAU AMARELO em 1975 primeira fase. Na TVE reencontrei Nelson Pereira meu grande ídolo e fizemos uma série de curtas para TV chamado Cinema Rio, era bárbaro. Trabalhei com todos os grandes diretores do cinema nacional. Dai saiu o encontro com o Walter Salles Jr., que estava começando na época e fizemos varias coisa juntos tipo: Conexão Internacional, Japão, China, A Grande Arte, etc. A partir dai são vários trabalhos realizados dentro e fora do Brasil. Atualmente estou terminando CASA GRANDE & SENZALA com direção do Nelson Pereira dos Santos, de quem sou completamente tiete e considero o maior cineasta brasileiro.

SC: Fale sobre o seu processo Criativo:
José Guerra: Antes de tudo não da pra escolher projeto, o mercado não deixa, é cruel. Precisamos ganhar grana para viver. Claro que quando podemos, a tendência de escolha é pelo diretor. Eu prefiro os amigos. Meu exemplo de processo criativo e que deu certo é com o filme de Pedro Bial, OUTRAS ESTÓRIAS. Havia feito o documentário chamado Os Nomes do Rosa, inspirado na obra de Guimarães Rosa e dirigido pelo próprio Pedro. Durante seis meses conheci a Luz do sertão de Minas. No final do documentário começamos a preparar o longa e junto ao Bial, ao Toni Vanzolini (diretor de Arte) e ao Fernando Zagallo (Dir.Produção) decupamos e desenhamos todo o filme com direito a storyboard e imaginamos como seria aquele sertão descrito por Guimarães Rosa. Bial me "jogava"a me inspirar e Degas, onde as planícies não são tão áridas e os tons chegam em pasteis. Como tirar essa aridez do nosso sertão? 1. Escolher a época do ano. Início da seca, onde o verde ainda esta verde e o sol não é tão caustico. 2. Escolher o negativo certo e rezar. 3. Filtrar de uma maneira que mantenha-se os verdes e os vermelhos sem matar o azul explorar o marrom e fazer dessa palheta um sertão menos árido. Foi um processo muito gostoso e o resultado passou para a tela. As condições de produção do Zagallo, foram fundamentais e junto a direção de arte do Toni e a leveza da mão do Bial em dirigir se fez um belíssimo filme digno da literatura de Guimarães. Terminado CASA GRANDE & SENZALA, parto para leitura e filmagem do MEMORIAL MARIA MOURA da Leilane Fernandes. Tenho um convite para filmar na Argentina LO QUE BUSCA ES AMOR de Sandra Gugliota em fase de finalização esta DUAS VEZES COM HELENA de Mauro Farias, que esta bárbaro e deve estrear ainda esse ano.