Gente
de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.
Em
muitos casos na história do Cinema Mundial, a relação entre Diretor e
Produtor gerou-e gera-conflitos, pois enquanto o primeiro quer manter-se
fiél à sua interpretação visual e artística da obra escrita, dando asas
ao seu fértil lado criativo, o segundo, muitas vezes é obrigado a lembrá-lo
constantemente dos limites financeiros e logísticos, mantendo os pés de
todos, cravados no chão. Nascido em Fortaleza, Ceará, O Cineasta Zelito
Viana, conhece bem estas duas facetas da realização Cinematográfica,
por uma simples razão: trabalhou com grande freqüência e afluência
nas duas, muitas vezes no mesmo projeto. Na Produção Executiva e/ou administrativa
de obras de terceiros, realizou clássicos como: "Quando o Carnaval Chegar"
e "A Grande Cidade" (ambos de Carlos Diegues), "Terra em Transe", "O Dragão
da Maldade Contra o Santo Guerreiro" (ambos de Gláuber Rocha), etc. Já
com o binômio Produtor-Diretor, foi responsável por filmes elogiadíssimos
como "Minha Namorada", "Avaeté-Semente da Vingança", e "Villa-Lobos-Uma
Vida de Paixão".
Site
de Cinema: Como é dirigir atores de 'escolas'
tão diferentes, com estilos e graus de experiência tão distintos, como
"por exemplo" a experiente Isabel Ribeiro em "Os Condenados", o galã
Pedro Aguinaga em "Minha Namorada" o internacional Milton Rodrigues, que
vinha de vários filmes no México ("Cyclone-Tornado", dirigido pelo expert
Mexicano em fitas de terror e ação de baixo orçamento René Cardona Júnior)?
Zelito Viana: Olha,
aí é uma questão de relacionamento humano, pois cada pessoa, cada ator
tem, digamos assim, sua maneira de serem conduzidos... eu aprendi muito
disso quando eu dirigi a Isabel Ribeiro e o Cláudio Marzo; A Isabel, eu
tinha que tratar com o mínimo de interferência e o Cláudio Marzo tinha...
que ser na porrada (risos)...
SC:
...E o Roberto Batalin?
Zelito Viana: ...O
Batalin é intuitivo total! O Batalin é intuitivo! O Batalin é indirigível
(risos)... um canastrão perfeito. Que nem o Milton Rodrigues... que você
falou (risos)...
SC:
Eu
o citei, pois nos filmes que ele fez fora do país eu o achei muito canastrão,
já no Avaeté ele me pareceu até contido e natural... o que o senhor fez
ali?
Zelito Viana: O
Milton? (pausa) Sabe o que é... é que no "Avaeté", o personagem dele era
um canastrão! A Direção de atores já está 90% resolvida quando se escala
o ator certo!
SC:
Eu recebi esta mesma resposta de George
Lucas quando eu fiz a mesma pergunta...
Zelito Viana: Ele
lhe falou isso? É isso aí, 90% é você escolher certo... por que em Cinema,
você escolheu errado...fodeu! (risos) Daí não tem mais jeito...no filme
"Perdida" (dirigido por Carlos A. Prates Corrêa, produzido por Viana),
nós notamos no primeiro dia de filmagens que não ia dar certo, e aí, nós
despedimos a atriz. Contratamos então a Maria Sílvia. Por exemplo, pois
é a gente 'tava errado... por exemplo, no "Avaeté" eu escalei o Del Cueto
errado...
SC:
O Jaime Del Cueto?
Zelito Viana: Isso,
O Jaime Del Cueto foi escalado errado e aí eu me fodi... tive que cortar
uma porção de sequências...
SC:
A interpretação não rendia?
Zelito Viana: É...
ele não funcionava como um empresário mal, ele não tinha o phisique du
role, e aí pronto... assim, escalou cero é 90% os outros 10% é você entender
a pessoa e consegui tirar dela o melhor que ela puder dar. Na verdade,
dirigir é só isso, tanto os atores como equipe técnica, quando você consegue
colocar um grupo de gente com a mesma...
SC:
Meta?
Zelito Viana: Com
a mesma meta, exatamente, aí é que nem técnico de futebol, maestro de
orquestra... você não faz nada e faz tudo...
SC: Como foi dirigir o teu irmão
(Chico Anysio) na comédia "O Doce Esporte do Sexo"?
Zelito Viana: Ruim (risos) Sobretudo
por que eu sou mais novo (risos)
SC: Sobre música nos seus filmes,
eu, por exemplo gosto bastante da trilha do "Minha Namorada", que é do
Gato Barbieri (músico ítalo-Argentino que compôs a trilha do mundialmente
famoso "Último Tango em Paris")? Como foi a sua colaboração com ele?
Zelito Viana: Olha, foi fantástico!
Ele, estabeleceu um diálogo com os músicos-gente que ele nunca
havia visto-que foi uma coisa... ali não tem só Gato, não, o Naná Vasconcelos
estava na Percussão, ... nós juntamos seis caras, músicos de altíssimo
nível ali num estúdio, rapaz,... foi uma experiência fantástica... eu
perdi essa fita! Eu já procurei feito um desesperado... o Gato começava
a tocar, os músicos iam atrás, não tinha nada escrito... e era tudo feito
na hora, sem partitura, tudo improvisado... eles não paravam de tocar
numca... já tinha até esgotado a duração, o tempo do filme e eles não
paravam (risos)
SC: Eu também gosto da trilha do
Egberto Gismonti (para "Avaeté")...
Zelito Viana: Isso é interessante:
O Egberto me perguntou se eu topava dele fazer toda a trilha sozinho,
eu falei que sim,... por que alí é só ele na trilha, ele gravou inclusive...
ele é o técnico de som, tocou todos os instrumentos, dentro do estúdio
da casa dele... a música do "Avaeté" é do Egberto e SÓ do Egberto! Ele
fez TUDO ali, a música é TODA dele... ele tocava, ele fazia uma faixa,
gravava, fazia outra...
SC: Era o técnico, mixava e te entregou
pronta a gravação?
Zelito Viana: Ia lá mudava, aumentava
o volume, gravava de novo, tocava,... só eu e ele ali no estúdio...
SC: Ele alí tocando, e o senhor só
alí, vendo tudo...
Zelito Viana: Só ali...
SC: Boquiaberto...
Zelito Viana: Babando (risos)
SC: Mudando de assunto quanto ao
seu trabalho na elaboração dos Roteiros, por exemplo, "Minha Namorada"
foi em parceria, né? Com Armando Costa...
Zelito Viana: Não só o Roteiro como
a Direção...
SC: Correto... Em "Os Condenados"
trabalhastes com o Eduardo Coutinho (famoso por seu premiadíssimo documentário
"Cabra Marcado Para Morrer")
Zelito Viana: E o Antonio Carlos
Britto.
SC: A sua parceria no "Avaeté" foi
com quem?
Zelito Viana: José Joffily.
SC: Pôxa, eu não sabia... Já O "Villa-Lobos"
foi feito em parceria com o Joaquim de Assis, que é também músico..
Zelito Viana: Exatamente!
SC: O senhor pode me falar um pouco
deste processo, trabalhando em parceria, escrevendo o Roteiro?
Zelito Viana: Olha a parceria num
Roteiro é fundamental, fazer isso sozinho só por uma pessoa que tenha
um nível de segurança muito grande... eu penso o seguinte: Quanto mais
gente trabalha no Roteiro, melhor ele fica! A gente vai sempre adicionando
contribuições! É legal se você tiver diferentes opiniões ou pareceres,
quanto mais gente palpitar, claro que isto pode levar tempo e custar caro...
No caso, por exemplo ai do "Villa-Lobos", foi ótimo!...
SC: Sim, mas "Villa-Lobos"
tem também todo um processo de pesquisa, muita coisa que não foi criada,...
já o "Minha Namorada", "Os Condenados", este último citado foi baseado
em obra do Oswald de Andrade, né?
Zelito Viana: Isso. Isso mesmo. Mas
de qualquer forma, é muito legal a parceria. Um escreve uma parte, o outro
escreve a outra, você junta os dois, um adiciona diálogos, às vezes um
ajuda num personagem mais simples, o outro entende mais o personagem mais
refinado... a gente tem sempre a tendência de escrever como a gente fala,
e fica aquele diálogo muito homogêneo, aquela coisa... você trabalhando
em parceria, há sempre a possibilidade de modificação... eu acho indisponível
se escrever um Roteiro no mínimo a quatro mãos!
SC: Como funciona, uma vez pronto
o Roteiro, o seu processo de visualização do mesmo, trabalhando com o
Diretor de Fotografia? O que me chama a atenção é que o senhor constantemente
muda o seu Diretor de Fotografia de filme para filme... Se não me engano,
o seu fotógrafo em "Minha Namorada" foi Leonardo...
Zelito Viana: ...Partucci.
SC: O senhor trabalhou com Dib Lufti,
com...
Zelito Viana: ...Affonso Beato, depois
eu ...
SC: Affonso Beato foi em "Terra de
Índios", certo?
Zelito Viana: Também trabalhei com
Edgar Moura, e no "Villa-Lobos" com o Walter Carvalho.
SC: Mas eu lembro que há mais gente
creditada na foto do "Avaeté": Dib Lufti, Edgar, Luís Saldanha e Francisco
Balbino...
Zelito Viana: Eu sempre gosto de
trabalhar no set com dois Fotógrafos, por que quando um me dá muito trabalho
eu mando ele embora e fico com o outro (risos)
SC: Isso sempre acontece?
Zelito Viana: Não, estou brincando,
mas no "Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", o Gláuber demitiu
o Affonso Beato e daí voltou atrás. Mas o que eu posso dizer? Na Direção
de Fotografia e Direção de Arte, que são duas posições-chave em
qualquer filme, acontece o mesmo que com aquilo que eu te falei sobre
o elenco. São as escolhas! Escolheu bem, tens grande chance daquilo dar
certo. Cada filme tem assim, uma pessoa que está melhor para a função,
alguém que... mais se encaixa. Por exemplo, no caso da Direção de Arte
do "Villa-Lobos", eu escolhi o Marcos Flaksman, em "Os Condenados" eu
usei um gênio, o Francesco Altan, um Italiano, que numca mais trabalhou
com isso,... ele hoje se dedica a cartuns, e infelizmente não trabalha
mais nisso, ele hoje é famoso cartunista, e foi responsável pela beleza
visual do filme. O Marcos, como eu dizia, no "Villa-Lobos"era a pessoa
indicada, pois eu precisava de um Arquiteto, uma pessoa que construísse
cenários, algo diríamos assim, mais voltada para a Arquitetura,... o Marcos
é um grande Arquiteto, então... cada filme é um caso... No "Avaeté", foi
o Carlos Liuzzi, um pintor, pois era uma Cenografia mais improvisada...
o que eu procuro sempre é trabalhar com o melhor possível na área específica.
No Avaeté eu tinha vários fotógrafos, por exemplo: O Edgar Moura, o Luís
Saldanha, que além do Som também é Fotogáfo, tinha o Jacques Cheuiche
que era o Assistente do Edgar,...
SC: É mesmo? Eu não sabia que ele
havia trabalhado no "Avaeté"! Eu adoro o trabalho dele! Eu há pouco assisti
"O Tronco" e a Foto dele é inacreditável!
Zelito
Viana: É boa, é?
SC: Bá, se é!
Zelito
Viana: Eu não vi o filme...
SC: Também, o filme não foi lançado...
foi jogado em meia dúzia de cinemas...
Zelito
Viana: Foi arremessado...
SC: Então era isso. Muito obrigado
pelo seu tempo, o.k.? Até mais!
Zelito
Viana: Eu que agradeço.
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