Gente
de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.
Nesta
semana, a entrevista apresentada é com um dos mais brilhantes Cineastas
brasileiros surgidos nos últimos 10 anos: Mauro Farias, um Diretor que
comprovou-e continua comprovando-que Direção enxuta e clássica e histórias
bem-humoradas com começo, meio e fim são caminhos possíveis de serem seguidos
no Cinema Nacional. Hábil montador ("Pra Frente Brasil") e Diretor de
Atores (Eliana Fonseca e Marisa Orth foram premiadas trabalhando sob sua
'batuta'), Mauro prepara a finalização de "2Xc/Helena", seu novo projeto.
Recentemente, ele foi cortês o suficiente para agendar um bate-papo com
o sitedecinema.com.br.
Site
de Cinema: Caro Mauro: Conte para os
leitores o que o levou a tornar-se Cineasta:
Mauro Farias: Desde que nasci convivo
com o mundo cinematográfico já que meu pai, Roberto Farias (um dos maiores
realizadores do Cinema Nacional, Diretor de obras tão diversas como "Cidade
Ameaçada", "Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa", "Pra Frente, Brasil",
etc), abriu esta senda na qual vim a me embrenhar. Não foi por acaso,
mas também não foi uma imposição. Acho que da parte de meu pai, quando
entramos na adolescência, houve um pensamento permeado de um sentimento
ancestral de ensinar seus conhecimentos para os filhos, de maneira que
se eles ao menos soubessem sua profissão teriam como ganhar dinheiro e
se estabelecer na vida. Por outro lado, acho que havia também o orgulho
misturado à fantasia de uma família unida, trabalhando unida, que ele
mesmo experimentou com meu avô trabalhando para ajudar a família. Mas
antes mesmo deste movimento por parte dele, já tínhamos despertado para
a curiosidade do cinema. Desde que descobrimos que meu pai, junto com
os irmãos, trabalhavam com aquela mesma coisa que nos fascinava quando
íamos ao Metrô Copacabana assistir às matinês do Tom e Jerry ou
a filmes do Gordo e o Magro, começamos a perturbar para aparecer nos filmes.
Conseguimos primeiro no filme "Toda Donzela Tem Um Pai Que É Uma Fera"
(clássica sátira social estrelada pelo tio de Mauro, Reginaldo Faria,
John Herbert e Walter Forster), mas resultou mais em frustração por que
era só uma figuração sem fala. Diante da nossa insistência veio uma proposta
em forma de desafio: que a gente arrumasse uma estória de um filme para
aparecermos. Meu irmão Luís (Lui de Farias, mais tarde Diretor dos belos
"Lili-Estrela do Crime" e "Com Licença, Eu Vou À Luta") pegou um livro
chato chamado "Três Meninos em Férias no Rio Tietê", e deu ao meu pai.
Inacreditavelmente a coisa funcionou por que logo se pensou uma comédia
com um tio trapalhão. Flávio Migliaccio acabou abraçando o projeto e o
filme "As Aventuras Com Tio Maneco" (dirigido por Fávio e considerado
hoje um marco do Cinema Infanto-juvenil no país) foi feito conosco no
elenco. Passamos aquelas nossas férias de verão ocupados com as filmagens
e no melhor estilo 'pai patrão', o cachê ficou por conta da escola, da
casa, comida e roupa lavada. Depois de alguns anos de muita insistência
conseguimos descolar uma viagem à Europa com uns tíquetes de permuta que
eles conseguiram com a British Caledonian que ficaram como pagamento pelo
filme. Depois da faculdade veio um certo vácuo na minha vida. A faculdade
me decepcionava quanto ao que mais me interessava numa carreira acadêmica.
Estudei economia mas minhas ansiedades talvez estivessem mesmo em outras
áreas. E o cinema agora não passava mais por uma escolha espontânea e
natural como aquela desejada na infância. Mesmo assistir a filmes se tornou
uma coisa meio torturante nestes tempos. Neste período meu pai deixou
a Embrafilme e voltou a filmar. Realizou "Pra Frente, Brasil".
Começou o período de ralação mesmo e de um conhecimento mais detalhado
e minimalista do fazer cinema. Além disso, sobre o que pode ser e de como
pensar a existência de um filme desde antes mesmo de sua realização. Com
isso, retomei o prazer do cinema novamente. Não só o do fazer como o de
assistir e o de pensar. Acho que começa aí uma disposição mais madura
e concentrada na idéia de realizar filmes. Parti para o meu primeiro filme
"Não Quero Falar Sobre Isso Agora" (em '90, estrelado pelas excepcionais
Eliana Fonseca, Marisa Orth e Monique lafond) e conheci o céu e o inferno
com ele. Nas filmagens tudo dava super certo, coincidências favoráveis,
inspirações inusitadas na hora de filmar, tudo num astral impressionante.
Na última semana de filmagem, a bomba. Collor assumiu e em prenúncio catastrófico
do que seria seu (des)governo congelou contas correntes, acabou com a
Embrafilme, conclusão: o filme ficou parado quase 1 ano. Terminei o filme
para o festival de Gramado que recebeu 4 prêmios, incluindo o de melhor
filme, e melhor roteiro (escrito por Mauro e Melanie Dimantas). Mas na
hora de lançar, outro estrago. Collor estava já pelo meio de seu abortado
mandato e o pessimismo era geral. Meu filme que era alegre e que precisava
contar com uma vontade mínima de se sair de casa e se reconhecer num bom
filme feito aqui encontrou uma atmosfera cinzenta de fim de carnaval,
num circuito que mesmo que se queira muito ver um filme acaba-se esperando
uma outra oportunidade. Depois disso, fiz televisão por alguns anos e
agora estou de volta fazendo filmes. Em 98 realizei "O Enfermeiro", adaptado
do conto homônimo de Machado de Assis, com Paulo Autran e Mateus Nachtergaele
(um média-metragem abordando a ética e amoralidade humanas, atualmente
passando no Canal Brasil). Este ano estou terminando "Duas Vezes Com Helena",
retirado de um conto de Paulo Emílio Salles Gomes (fotografado por José
Guerra, já entrevistado aqui no www.sitedecinema.com.br
e estrelando Fábio Assunção).
SC:
Como funciona o seu processo criativo?
Mauro Farias: Sinto que cada vez mais
é necessário controlar as dificuldades de se fazer um filme, já que os
erros no cinema são cumulativos. O desempenho ruim de um ator se soma
com uma fotografia mal feita ou um som ruim e tudo começa a conspirar
contra o filme. Acho importante que as escolhas passem por critérios os
mais apurados possíveis. Nunca fazer um filme por fazer. A estória tem
que dizer alguma coisa a você, de preferência muita coisa. Além disso,
deve também dizer alguma coisa aos outros. Se isso é impossível saber
de antemão, ao menos sua intuição deve ser consultada. Se não, acho sempre
melhor procurar outra que igualmente te interesse e que te pareça também
interessante para o público. Não acredito muito em ensaios exaustivos
antes de se rodar um filme. Acredito que o elenco escolhido, deve ser
um elenco da sua confiança, ou seja, atores bons e com experiêcia. Uma
ou duas leituras antes do filme começar a ser rodado também é essencial.
Agora, tudo isso faz parte de um todo que quanto mais cedo for definido
melhor para que se possa apurar bem principalmente a caracterização dos
personagens, a roupa, a maquiagem, a peruca, enfim há uma infinidades
de detalhes que parecem menores mas que sempre podem complicar na hora
da filmagem e quanto mais cedo se começa a defini-los melhor. Isto também
se aplica a todas as outras áreas do filme como fotografia, cenografia,
etc. Agora, tudo isto passa pela questão da grana e em geral não se trabalha
com muita antecedência por causa dos custos que sobem muito, o que é um
êrro. O desenho de produção é uma coisa importante para que se possa decidir
sobre a riqueza de expressão que se quer dar ao filme e é assim que se
começa a criar efetivamente o filme que se vai fazer.
NOTA: As informações
entre parênteses foram adicionadas por Marco Freitas para dar auxiliar
o público que por acaso não conheça o entrevistado a saber um pouco sobre
os talentos aqui enfocados.
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