Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

Marcos Flaksman é o entrevistado do www.sitedecinema.com.br desta semana. Com mais de trinta anos de expeiência(!) em pouco mais de 50 anos de vida, este profissional redefiniu o Desenho de Produção e a Direção de Arte no Brasil assinando a Cenografia de obras como "Garota de Ipanema", "Brasil, Ano 2000", "Villa-Lobos", "O Que é Isso, Companheiro". Sua atenção para o detalhe aliado a um profundo conhecimento artístico tornaram-no um parceiro profissional de elogiados Diretores como: Chris Cain, Walter Lima Jr., Bruno Barreto, Paul Mazursky, Juan-Ruiz-Anchia, etc.

Marcos Flaksman cenografou a Super-Produção "Ruas de Fogo", estrelada por Wesley Snipes ( "Febre da Selva", "Mais e Melhores Blues", etc), Klaus M. Brandauer ( "Mephisto", "Coronel Redl", etc) e Adrian Pasdar ( "Near Dark", "Pagamento Final", etc), dirigida por Joe Roth ( "Coup De Ville", "Vingança dos Nerds2")

 

 

 

Site de Cinema: Fale um pouco ao público do www.sitedecinema.com.br sobre a sua 'iniciação' no mundo do Cinema.
Marcos Flaksman:
Até pouco tempo, sempre me considerei um homem de teatro. Foi onde comecei minha carreira como cenógrafo, e onde também fui iluminador, figurinista, maquiador, ator e diretor. Comecei como amador muito cedo, aos 15 anos de idade e me profissionalizei aos 18. Tenho muitos prêmios e aproximadamente 80 espetáculos em meu currículo. Na verdade, tinha grandes afinidades intelectuais com o pessoal de teatro e a minha vida era isso, fazer teatro. Quando o Leon Hirzman (falecido Cineasta, realizador de "São Bernardo", "Eles não Usam Black-tie", etc) me convidou para fazer o primeiro filme, "A Garota de Ipanema" ('66) eu não sabia mesmo o que era "fazer cinema", e, quando fui fazer, o fato da minha visão ser "filtrada" o tempo todo através do olhar do diretor e do fotógrafo tirava o controle da minha mão e me incomodava. Eu não sabia nada, mas tinha a minha intuição e aprendia rápido. Nêste filme fui guiado pelas mãos do grande fotógrafo Ricardo Aronovich (Argentino reponsável pela iluminação de "Os Fuzis", "Missing", etc). Aprendi muito de cor, um pouco de enquadramento e também do que era errado, daquilo que não se devia fazer. Hoje, acho que este é o primeiro passo para quem quer fazer cinema: saber o que não se deve fazer. Uma escola que só ensinasse isso já ia melhorar bastante o nível do cinema por aqui!

SC: Como funciona o seu processo Criativo, visualizando os cenários?
Marcos Flaksman: O cinema de ficção é diferente do documentário porque não retrata o real. Nada é real num filme de ficção, Marco, embora possa parecer real tantas vêzes, de verdade, partimos das referências deste para recriar algo parecido com ele. E isso diz respeito ao roteiro, ao ritmo em que as coisas acontecem, à intensidade delas. Sabemos que não é assim na nossa vida, mas aceitamos que seja assim no cinema. Afinal, somos capazes de contar uma vida em duas horas. Às vezes uma geração inteira em duas horas, ou uma guerra de cem anos. Portanto, começamos a recriar o universo e considero que "desenhar um filme" é um pouco recriar o universo a partir de todas as informações que acumulamos: desde a constatação formal do mesmo até o exercício que costumo chamar de "captura de imagens", que nada mais é que o despertar de sensações evocadas pela situação dramática proposta pelo roteiro no seu inconsciente. A "atmosfera" mais que o cenário, é isso que todos nós devemos buscar para fazer da experiência de ver um filme uma viagem inesquecível.
Quando eu cheguei no Cinema, eu percebi a imprtância de me inteirar sobre aspectos como o tipo de formato de tela, da importância de me relacionar com o Diretor de Fotografia e é claro, com o Diretor do filme, que tem a concepção da imagem a ser contada. Uns trabalham com dimensões de um quadro mais aberto, dos... dos...

SC: Estás te referindo aos diferentes aspect-ratios ou dimensões do quadro como Anamorphic, 1:85, etc?
Marcos Flaskman: Sim, desde o formato até tons de cores e luz, o tipo de luminosidade desejada. Então eu tive com os diversos Diretores de Fotografia que trabalhei diferentes experiências devido a eles serem diferentes pessoas, com concepções distintas, mas sempre relações extremamente cordiais e interessantes, quero dizer, muito foi aproveitado da troca de informações que tivemos durante o processo de criação e realização dos projetos. Eu trabalhei, você mesmo citou, com vários e a partir do filme... "Os Sete Gatinhos", eu fui para um estúdio fazer os cenários, mas não um estúdio de TV, pois a TV já fazia isso, mas para um estúdio construir cenários para um filme, e este tipo de trabalho era algo bastante desconhecido aqui, pois apesar de terem sido feitos vários filmes em estúdio em outros anos, produções da Atlântida, Cinédia, etc, no final dos anos '70 não havia mais isso.

SC: "Os Sete Gatinhos" foi praticamente todo rodado em estúdios, certo?
Marcos Flaskman: Sim, o estudio dá milhões de vantagens, como som direto, posicionamento de câmera, etc. Pois como eu dizia, apesar das experiências que o Cinema Brasileiro teve com construção de Cenários em outras épocas, com o Cinema Novo, aqueles... hábitos, aquela forma de fazer Cinema...

SC: Quase que havia sido esquecida?
Marcos Flaskman: É este tipo, esta maneira de fazer Cinema, já não se fazia mais. O Cinema Novo, tão influenciado pelo Neo-Realismo Italiano, ...

SC: Nouvelle Vague...
Marcos Flaskman: Muito influenciado pela Nouvelle Vague, com aquela idéia de câmera na mão,... o Cinema feito em locação, um estilo meio documental... muito político, na medida que tinha muito como tema o status social. Já no "Sete Gatinhos" o projeto era baseado na obra do Nelson Rodrigues, uma obra teatral, ou seja voltado para dramaturgia e isso me levou a desenvolver um outro olhar em relação ao meu trabalho. Quando eu falo disso, na verdade, eu me refiro a como eu era mesmo via o Cinema de outra maneira, depois, eu trabalhei em produções estrangeiras com grandes estrelas da Fotografia Internacional...

SC: Quem fotografou "Streets Of Gold", filme em que fizestes Desenho de Produção (estréia de Klaus Maria Brandauer como astro de filmes Norte-Americanos, secundado por Wesley Snipes-Dirigido por Joe Roth, hoje um dos mais poderosos homens da Indústria Cinematográfica de Hollywood)?
Marcos Flaskman: Foi...Albert. Arthur Albert, de origem Venezuelana... trabalhei com Don McAlpine ("Predador", "Vagabundo na Alta Roda", etc),...

SC: Em "Luar Sobre parador"?
Marcos Flaskman:
Isso! Também trabalhei com um, na época, jovem Fotógrafo Francês chamado Phillipe Rousselot em "Floresta das esmeraldas" (Phillipe também fotografou "Les Liasons Dangereuses-Ligações Perigosas", "Rainha margot", etc), que por sinal até ganhou Oscar (por "Nada é Para Sempre"), que é um grande amigo meu...

SC: Ele é maravilhoso! É um dos favoritos do John Boorman (que dirigiu perto de Manaus "Floresta das Esmeraldas", estrelado pela grande atriz Dira Paes e Meg Foster)
Marcos Flaskman:
Eu trabalhei com o Anchia ("Amantes de Maria", "Caminhos Violentos", etc) que você mesmo citou...e com cada um desses caras, eu vi, no filme do John a dimensão era a de uma grande produção, tanto na época como hoje, construímos grandiosos cenários, no Norte do país, usando gigantescos galpões numa área sem muita infra-estrutura, e contando com muitos efeitos especiais, etc. Assim, eu aprendi a lidar melhor, a desenvolver uma linguagem mais eficaz com os Fotógrafos, as perguntas que eu começei a fazer ficaram muito mais objetivas tecnicamentes, como hoje eu sou capaz de desenhar um filme não pensando na estrutura final de um cenário, para impressionar um visitante ao set, mas especificamente para o olho da câmera. Agora, por exemplo, eu estou preparando uma comédia ("A Partilha", baseada na peça de Miguel Fallabella) a ser dirigida pelo Daniel Filho e estou constantemente trocando informações com o Fotógrafo (Walter Carvalho, de "Pedro Mico", "Central do Brasil", etc) por telefone, pois ele não está aqui no Rio, para acertar problemas e condições de ordem técnica e visual com ele. Este filme, conversando com Walter terá uma luminosidade, um tom claro, e até quando a cena se passar num quarto fechado, com pouca luz, terá que estar mais claro que o equivalente em outro filme com temática mais pesada. Marco, no Curso que eu dou de Direção de Arte, eu digo o seguinte, num filme de ficção você reinventa a realidade, não só pela quantidade de tempo relativamente curto, mas até por que tudo é registrado pela lente de uma câmera. O resultado final, como dizemos "está na lata". No Teatro, a realidade é mutável, tanto que é comum, o elenco fazer comentários tipo "a apresentação de quinta-feira foi bem melhor". No Cinema, você pode até gostar mais de um filme na segunda vez que o assistir, mas daí depende de você, pois uma vez filmado e montado, o que está lá não muda. Se você tiver tempo, Marco, eu gostaria de contar um caso...

SC: Por favor...
Marcos Flaskman: ...eu vou te falar da minha colaboração em um projeto (ainda inédito-em fase de Edição de som), "Xangô de Baker Street" (Dirigido Por Miguel faria Jr. brevemente nas nossas páginas) e fotografado por Lauro Escorel ("Dias Melhores Virão", "Brincando nos Campos do Senhor", etc): A trama desta comédia se passa no final do Século 19 e trabalhando com reconstituição de época, fui pesquisar as fontes de imagens e aí descobri que a memória que eu tinha desta época, o imaginário que tinha destes anos era toda proveniente daquelas pinturas à óleo hiper-realistas de temática romântica. Hoje em dia, por exemplo, quando você pensa na ...Guerra do Vietnam, você pensa no que viu em filmes ou em cenas de coberturas jornalísticas. Quando se pens nos ano de '68 no Brasil, pensa-se em imagens com um tipo de definição não muito boa das tvs e em preto e branco, ou seja, uma imagem de TV ficou gravada na sua mente, ou de jornal, de revista da época. Assim, já que a imagem que se tem da época do Segundo Império no Brasil é uma imagem de pintura à óleo, o Lauro, através de trucagem e tecnologia, está dando um acabamento similar ao filme. na minha opinião, é a produção de época mais elaborada já feita na cinematografia Nacional.

SC: Muito grato pelo seu tempo, Marcos.
Marcos Flaskman: De nada, Marco.

NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo www.sitedecinema.com.br para ilustrar os talentos citados.

 

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