Gente
de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o
site.
Helvécio Ratton nasceu
há cinqüenta anos na bucólica Divinópolis, MG; Um apaixonado pela psiqué
humana, formou-se Psicólogo, mas tornou-se internacionalmente aclamado
como Cineasta -seus filmes estão entre os nacionais mais premiados
mundialmente. Alguns dos filmes que dirigiu foram o curta "Em Nome da
Razão" (sobre a ética médica), e os longas "Dança dos Bonecos", "Menino
maluquinho"e "Amor &Cia". Entre uma entrevista e outra, Ratton,
dedicou alguns minutos para falar
conosco:

|
Ratton dirige Henrique
Borges em "Amor &Cia." |
|
Helvécio dirige Patrícia
Pillar em "Amor&
Cia." |
SC:
Caro Helvécio, quais influências levaram-no a seguir a carreira
de Cineasta?
Helvécio Ratton
: Eu me tornei cineasta por paixão
e por acaso. Desde a infância, os filmes tiveram muita importância em
minha vida, me lembro ainda muito pequeno, no interior de Minas Gerais, de
ver na porta do cinema os cartazes dos próximos lançamentos e ficar louco
para assistí-los. E a maior parte deles eu não podia ver por que eram
dirigidos ao público adulto. Na adolescência, fui muito ao cinema e
frequentei cineclubes em Belo Horizonte, onde pude ter contato com os
clássicos e ver filmes brasileiros. Mas não imaginava que fosse
possível para mim fazer filmes; o cinema era uma paixão grande, mas
distante como possibilidade real. Participei de alguns curtas antes de
entrar para a universidade, fiz até uma ponta como ator, mas parou por
aí. A participação política na faculdade acabou me levando para
fora do Brasil. Fui morar no Chile como exilado político, início dos anos
70, no governo de Salvador Allende. No Chile, retomei meus estudos de
Economia mas já andava meio sem tesão de seguir o curso. Foi aí que entrou
o acaso em minha vida. Uma tarde, no centro de Santiago, me encontrei com
um amigo chileno que estava fazendo a produção de um longa-metragem.
O cara estava formando uma equipe e, como ele sabia que eu adorava
cinema e tinha tido pelo menos uma experiência, por mais amadora que
fosse, então ele me convidou pra trabalhar com ele. Era um longa-metragem
de época, super produção, e eu entrei trabalhando como assistente de
produção no departamento de arte. Foi dessa forma que entrei no cinema,
pra não sair mais. Depois desse filme trabalhei na Chile Films, a
Embrafilme de lá, em vários curtas, fazendo de produção a roteiro, o que
me deu uma visão bem abrangente do processo de produção. Voltei
pro Brasil em '75 e fiz muitos filmes publicitários e documentários
institucionais, até conseguir fazer meus próprios filmes. Minha sorte foi
não ficar parado em nenhum momento. O cinema é uma arte
complexa, onde a gente está aprendendo sempre e eu tenho uma vontade
permanente de aprender.
Minha escola de cinema são os filmes dos quais participo e
aqueles que assisto. Vou muito ao cinema e busco ver de tudo.
Por isso mesmo, minhas influências são bastante ecléticas e
variadas, de John Ford a Cacá Diegues. Mas se eu tivesse
que citar um cineasta, citaria Hitchcock, por sua incrível habilidade de narrar
com imagens.
SC:
A Direção de Atores em seus
filmes é MUITO boa, inclusive quando osenhor lida c/gente sem muita
experiência na área ( o elenco mirim de "O Menino Maluquinho", porexemplo)
e c/veteranos que , na minha opinião, tem a tendência quando trabalham com
OUTROS Diretores, de exagerar nas interpretações (Wilson Grey está
convincente em "A Dança dos Bonecos", bem como Marco Nanini em "Amor&
Cia., Luís Arutin em "O Menino Maluquinho"). Por favor fale um pouco
aos leitores do Site de Cinema sobre o seu método/'modus operandi' de
Dirigir atores.
Helvécio
Ratton :Na minha opinião, o mais importante em um
filme são os atores. Não é a toa que o público vai ao cinema por causa dos
atores. Você embarca ou não em um filme na medida em que você
acredita nos personagens, vividos por aqueles atores. Se o ator não
funciona, o filme vai por água abaixo. Não é a bela fotografia ou a boa
direção de arte que vai segurar a barra. Por isso, nos meus
filmes os atores são privilegiados e são o centro da produção. Para a
maior parte dos diretores, a técnica é o mais importante e eles tratam a
câmera como se fosse a rainha do set, tudo é trazido para ela,
principalmente os atores. Eu trabalho da forma inversa: começo cedo a
armar a cena com os atores, ensaiar com eles, com o fotógrafo do meu lado.
Em função da movimentação dos atores é que eu decido onde colocar a
câmera, ou seja, a técnica entra para tirar o maior proveito possível da
interpretação. Procuro conversar muito com meus atores, ouvindo
sua opinião sobre o roteiro e reescrevendo os diálogos em função deles. Se
percebo que o ator tem mais facilidade de falar o texto de forma diferente
daquilo que está escrito, mas com a mesma intenção, não tenho problema
nenhum em mudar o texto. Acho mesmo que os diálogos devem passar por uma
adaptação aos atores. Dou também muita liberdade para os atores
trabalharem. Busco explicar a eles o sentido dramático da cena, em que
consiste a ação do personagem e o resto é com eles. Agora, eu
trabalho um bom tempo antes das filmagens com os atores. Desde a seleção
do elenco eu procuro fazer leituras e alguns exercícios em torno às
situações do filme. Acho importante que as grandes questões relativas à
interpretação sejam resolvidas bem antes de se pisar no set de filmagem. É
claro que alguns detalhes serão resolvidos na hora e tem que haver lugar
para o acaso (de novo o acaso!) e para a improvisação.
Para se chegar numa interpretação sem
overacting, penso que o melhor é fazer o ator colocar tudo pra fora
e depois ir limpando, tirando os gestos inúteis, as ênfases
desnecessárias. Mas não podemos nos esquecer que o diretor é o primeiro
espectador, o primeiro crítico do trabalho do ator, e é preciso que ele
tenha sensibilidade suficiente para orientar o ator. E o ator espera que o
diretor faça isso, que assuma seu papel. Não importa que o ator tenha
feito uma grande quantidade de filmes e o diretor esteja estreando, o ator
necessita que o diretor o dirija. Uma outra questão
importante diz respeito à continuidade dramática. Como filmamos quase
sempre fora de ordem, quem sabe de que forma um plano ou uma cena se liga
com o que vem antes ou depois no filme é o diretor, e cabe a ele dizer ao
ator sobre essa continuidade emocional, sobre o estado de espírito do
personagem naquele momento. Dirigir atores é fascinante, mas exige
disciplina e sensibilidade.
SC:
Como funciona
o seu processo criativo de visualização do material escrito, traduzindo o
texto p/imagens e sua parceria com os Diretores de Fotografia e
Equipe de Direção de Arte.
Helvécio Ratton :Como busco narrar através de
imagens, procuro material visual todo o tempo, até mesmo durante o
processo de escrita do roteiro. Vejo fotos, filmes, visito locações e ver
tudo isso vai condicionando a própria criação do texto. Em um de meus
filmes, A DANÇA DOS BONECOS, praticamente escrevi o roteiro em
função de um lugar, Biri-Biri, que eu havia visitado e que me havia
encantado. A visualização, portanto, não é para mim um processo que ocorre
depois do roteiro estar pronto, mas sim durante sua própria
criação. A parceria com o fotógrafo e o diretor de arte é
fundamental pra definir a cara do filme. Procuro trabalhar com
profissionais talentosos e quero que exerçam seu talento, que dêem
sugestões e digam como estão visualizando a luz, os ambientes ou o
figurino. Como diretor, não abro mão de dar a palavra final, de discordar,
se for o caso, da opinião de um ou de outro profissional. Mas sei também
mudar de opinião quando percebo que estava errado sobre algum assunto, por
que o importante é o filme e, depois que algo está impresso na película, é
muito caro voltar atrás. Agora, é fundamental estabelecer
uma cumplicidade entre o diretor e seus colaboradores mais próximos, caso
dos diretores de arte e fotografia. Na medida em que essa cumplicidade se
estabelece, o trabalho flui rápido e prazeiroso. Essa relação
vai surgindo com o tempo, desde o momento em que se lê o roteiro juntos,
trocam-se idéias, visitam-se locações e vai se definindo o conceito, vai
se desenhando o filme. O diretor, claro, é a
ponte entre os dois departamentos, de arte e fotografia, e é preciso
saber lidar com conflitos, com diferenças de opinião e até de
temperamentos. Todas as ações devem estar em favor do filme, não há lugar
para demonstrações de virtuosismos que desviem o olhar do principal. Me
incomodam certos filmes onde se percebe que o diretor de arte carregou na
mão ou a fotografia exagerou no rebuscamento. E o responsável final por
isso é o diretor. É ele quem dá o tom. Por isso, não dá pra vacilar quando
se percebe que determinado profissional está levando o filme para um
caminho que a gente sente que não é o melhor. Quem dá os limites é o
diretor, mas ele tem que fazer seus colaboradores darem ao
filme o melhor que
podem.
NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo
www.sitedecinema.com.br para ilustrar os
talentos citados.
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