Gente
de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.
O Cinema do nosso entrevistado desta
semana, Luiz Fernando Goulart, é sinônimo de qualidade. Seja como
Diretor de Produção ( "Garota de Ipanema","Todas As Mulheres do Mundo"-ambos
de '67 e "Chuvas de Verão" , de '78), ou aclamadíssimo Diretor ( "A Rainha
do Rádio", de 1979' , "Marília E Marina", de' 76 e o musical juvenil "TropClip",
de '84), toda vez que você deparar-se c/um filme que tenha o toque de
Goulart na realização, a única coisa previsível será a sua satisfação
ao término da narrativa. A seguir momentos de nosso conversa com Luiz
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cena
de "Marília e Marina"
(musicado por Francis Hime)
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Paulo
Guarnieri e Beyla Genauer em
"A Rainha do Rádio" de 1979
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Carlos
Lofler em cena "TropClip"
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SC-
O que o levou
a tornar-se Cineasta (influências na telona ou pessoalmente, início da
carreira)?
Luís
Fernando Goulart
A despeito de quase a totalidade dos cineastas da minha geração ter chegado
à produção de filmes a partir da sua grande paixão pelo cinema na infância,
a minha história foi um pouco diferente. A minha primeira grande paixão
na vida foi o rádio. A partir do rádio, que eu escutava quase que diariamente,
fui descobrindo o meu amor pela música brasileira e por extensão, por
um sentimento de brasilidade que mais tarde me levaria ao cinema, ao qual
cheguei mais graças às chanchadas da Atlântida do que aos filmes que Hollywood
nos mandava. Desses, gostava mesmo era dos musicais. Ainda jovem, descobri
também o teatro, primeiramente o de revistas onde ia aos domingos com
minha família e depois as grandes peças que se montavam na época. Só no
segundo grau, ao fazer um curso de cinema do JEC, Juventude Estudantil
Católica, que me veio a idéia de um dia, quem sabe, trabalhar em cinema.
Mas, foi na faculdade de Direito da PUC no Rio de Janeiro, quando conheci
Carlos Diegues e um grupo jovens que sonhavam com a possibilidade de se
fazer cinema no Brasil que tudo se tornou realidade para mim, a ponto
de abandonar os estudos de direito para me dedicar ao cinema. Foi aí que
eu descobri o neo Realismo italiano, a Nouvelle Vague e todo o cinema
nào Hollywoodiano, antes mesmo de conhecer os filmes do cinema hegemônico
de Hollywood. Portanto, sou um cineasta que na realidade viu poucos filmes,
mas a minha grande ligação com o cinema está na possibilidade de fazê-lo,
mais do que na de assisti-lo, embora hoje em dia esteja um pouco fora
do mercado.
SC-
Como é o seu trabalho de Direção de atores?
Luís
Fernando Goulart
Falando dos três longas que eu dirigi, MARILIA E MARINA, A RAINHA DO RÁDIO
e TROPCLIP, acho que neles baseei o meu trabalho num forte relacionamento
com os meus atores. Gosto muito de trabalhar o psicológico e não deixar
que as coisas se automatizem. Para isso, prefiro sempre trabalhar com
um elenco com o qual eu me relacione mais profundamente, principalmente
através de uma entrega quase cega aos meus propósitos. Não me sentiria
bem trabalhando com grandes estrelas que não se entregassem totalmente
à minha orientação, sem que isto, de maneira nenhuma tenha um sentido
masoquista de domínio e exercício de poder. Pelo contrário, gosto de trabalhar
quase em silêncio total, orientando muitas vezes o meu câmera para que
filme antes mesmo dos atores saberem que já estamos rodando, pegando-o
mais pela surpresa do que pelo trabalho mecanizado. Não repito muito as
cenas, normalmente trabalhando com um ou dois takes apenas e gosto muito
de atores que saibam improvisar, sem que jamais percam seus personagens
de vista. Também não gosto de atores que procurem tomar partido de cenas
apenas para si ou que acabem querendo roubar o filme, uma característica
muito comum no nosso cinema, às vezes um pouco "over" por culpa da falta
de controle do diretor. Quando trabalho com atores de grande experiência
e com grandes nomes procuro escolhe-los entre os que sabem que ser ator
é um trabalho árduo e que a sua atuação em cinema estará sempre nas mãos
do diretor. Também faço questão absoluta que se entreguem ao trabalho
e não vejam copiões ou qualquer prova antes que liberados por mim. Isso
tudo é discutido e aprovado na contratação do elenco. É importante que
o ator veja o seu trabalho no filme através dos meus olhos. Porisso, em
MARILIA E MARINA, trabalhei nos papéis principais com duas atrizes estreantes,
Denise Bandeira, que veio a ser bastante premiada ao longo dos anos e
hoje é uma ótima roteirista de televisão e Kátia D'Angelo, que também
fazia ali o seu primeiro trabalho e depois fez muitos outros. Cerquei-as
com a experiência da minha querida Fernanda Montenegro, do Nelson Xavier
e com a garra e o talento do Stepan Nercessian, que também iniciava uma
brilhante carreira de sucesso. No meu segundo filme, trabalhei com Beyla
Genauer, uma atriz que havia feito bastante sucesso em sua juventude no
teatro e que, casada, abandonou a carreira. Quando quis voltar bastante
tempo depois, foi aconselhada pela Fernanda Montenegro a me procurar e
fizemos juntos A RAINHA DO RÁDIO, filme onde ampliei as minhas idéias
de direção, trabalhando com um elenco que misturava atores com experiência
e técnica teatral com habitantes de uma pequena cidade mineira. Em muitos
momentos eu preparava os atores para estarem sempre improvisando e vivendo
os seus personagens mesmo fora das filmagens, para que conseguíssemos
uma integração total com a cidade. O resultado me agradou muito. Muitas
cenas foram improvisadas de tal forma que a ação estava acontecendo sem
que as pessoas sequer soubessem que estávamos filmando. Beyla ganhou o
prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília daquele ano. Em TROPCLIP
trabalhei com um elenco bastante jovem e inexperiente em cinema, ainda
numa linguagem quase naturalista, onde mais uma vez usei este processo.
Foram essas as minhas três experiências em longa metragem, como diretor.
SC-
Os temas abordados nos três filmes que o senhor dirigiu são bastante diversos:
a paixão arrebatadora em "A Rainha do Rádio", a trágica jornada de duas
garotas de classe média em "Marília e Marina" e um musical otimista p/público
jovem "TropClip"?
Luís
Fernando Goulart
O que o atraiu a estes assuntos (o q os levou a escrevê-los e dirigí-los)?
Na realidade, embora temas diversos, todos têm muita coisa em comum e
o traço mais forte que os une seja o fato de em todos os três filmes eu
tentar passar uma visão da classe média com alguma ironia através de seus
preconceitos, seu lado um tanto ridículo de apego a elementos sem qualquer
grandeza, onde as aparências muitas vezes procuram disfarçar a realidade.
Ao mesmo tempo que eu mostro uma visão talvez um pouco pessimista dessa
realidade tenho certeza que por ser a minha classe social, tenho por ela
um grande carinho e me envolvo, nos roteiros, com essa relação um tanto
esquizofrênica. Em MARILIA E MARINA, essa visão preconceituosa estava
na arraigada relação daquela pobre mãe, viuva, herdeira de um marido de
personalidade ilibada mas sem recursos, que procurava se salvar e as filhas
através de um conceito muito comum na época de "…um bom casamento" para
as suas filhas, ou seja, um casamento com alguém que tivesse recursos
para reverter aquela vida de pouco dinheiro. Tudo isso em nome da felicidade
das filhas. Em RAINHA DO RÁDIO, um título por sua vez repleto dessa ironia,
trouxe a temática da solidão, onde o personagem principal, uma locutora
de rádio do interior, na faixa dos cinquenta e muitos anos, era totalmente
estigmatizada por não ter se casado nunca, num ridículo ambiente social
numa pequena cidade, onde as aparências é que importavam. Tentando buscar
o que me levou a fazer estes três filmes e não outros, me lembro que cheguei
a MARILIA E MARINA a partir da minha grande paixão pela obra poética e
musical de Vinicius de Moraes e desde cedo quis fazer este filme, inspirado
livremente em sua poesia BALADA PARA DUAS MOCINHAS DE BOTAFOGO. RAINHA
DO RADIO me foi trazido pela Beyla Genauer, via Fernanda Montenegro, como
já falei e inicialmente era um monólogo do Saffioty Filho. Também aí,
o monólogo serviu-me apenas de inspiração para a história que contei.
Em TROPCLIP, aceitei o desafio do Durval Gomes Garcia, que queria produzir
um filme para jovens, num momento em que o mercado cinematográfico vinha
apresentando vários produtos destinado a eles. Propus então fazermos um
filme diferente, onde em vez de mostrarmos jovens se divertindo, fazendo
gracinhas e com cantores adolescentes, mostraríamos a trajetória de quatro
jovens cuja única relação seria a vontade de viver e crescer, onde a vitória,
em vez de ser o coração da mocinha ou o sucesso a qualquer custo seria
a sonhada inserção no mercado de trabalho. Me lembro das minhas conversas
com o Durval, que a princípio se assustou com as minhas idéias. Ele queria
fazer um filme onde duas turmas de jovens, uma amante do samba e a outra
do rock se degladiavam até a vitória final do empate, as duas músicas
eram boas. Esse filme eu jamais faria na minha vida. Não tinha nada a
ver comigo. Pensei em desistir mas como eu tinha sido indicado ao Durval
pelo Alberto Shatowski, como o diretor que tinha condições de fazer um
bom filme para ele, o Alberto entrou um pouco no circuito e acabou nascendo
o TROPCLIP, um filme que de alguma forma antecipou uma tendência que existe
hoje no próprio mercado de trabalho do cinema, onde alguns dos melhores
profissionais são ainda muito jovens, que buscam compensar, muitas vezes
a pouca experiência com uma garra e vontade de trabalhar impressionantes.
Assim eram os personagens de TROPCLIP, onde a ironia de que falei estava
presente em vários momentos do filme.
SC-
Como é o seu trabalho c/o diretor de fotografia, adaptando visualmente
o q está na página (os seu três filmes parecem dirigidos por pessoas distintas)?
Luís
Fernando Goulart
Se o meu trabalho com os atores é de um relacionamento bastante estreito
e forte, que se inicia bem antes de começarmos as filmagens, com o diretor
de fotografia é mais solto e mais calcado na confiança mútua. Meus dois
primeiros filmes foram uma consequência natural do trabalho que eu e o
Luis Carlos Saldanha vínhamos desenvolvendo juntos, em curta metragens
nas antigas TERRA FILMES e depois, ALTER FILMES. Tínhamos na época um
relacionamento bastante simbiótico e estávamos juntos praticamente todo
dia. Como os atores, Saldanha sabia exatamente o que eu queria e como
consegui-lo, também sabia que eu queria uma luz sempre pronta para rodar,
de montagem rápida. Sabia também que eu pretendia rodar cenas ainda no
período de ensaios, sem que os atores percebessem, além de em alguns casos,
surpreender a ação, nas cenas externas, com os atores quase que literalmente
tomando de assalto ruas e locais, onde os passantes jamais saberiam que
um filme estava sendo feito, muitas vezes até com o uso de uma falsa câmera
para distrair as pessoas, enquanto que a verdadeira câmera nem era percebida.
Em TROPCLIP eu e o Afonso, um fraterno e querido amigo desde os primeiros
tempos de cinema e de vida, fomos até mesmo obrigados a levar esse esquema
às últimas consequências. Pelo menos 40 por cento do filme passava-se
num shopping e tivemos que rodar a grande maioria dessas cenas com o shopping
funcionando e o que é pior, no período imediatamente anterior ao natal.
Foi uma genial loucura. Espalhamos tripés e falsas câmeras pelo shopping,
o Afonso apenas reforçou a iluminação existente, o que já também nos permitia
manter todo aquele clima de festa que acontece nesses períodos nesses
lugares e trabalhamos com microfones, câmeras e, o que nos foi mais difícil,
equipe, escondidos. Eu ensaiava os atores como se tivéssemos fazendo compras,
o Afonso instruia os seus eletricistas como se estivessem decorando as
lojas para o natal e com isso conseguimos fazer o que até para nós mesmos
parecia impossível, não fosse a nossa opção por uma profissão que no Brasil
tem muita coisa de impossível.
NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo
www.sitedecinema.com.br para ilustrar os talentos citados.
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