Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site. Nosso entrevistado desta semana é Mair Tavares; Ele iniciou a sua carreira em '68 como Diretor de Produção em clássicos do Cinema como "Pedro Diabo Ama Rosa Meia-Noite" (de Miguel Faria Jr) e "Matou A Família E Foi Ao Cinema" (de Júlio Bressane). Revelando-se mais tarde exímio Montador, ele Imprimiu ritmos personalíssimos a filmes elogiados como "Bye Bye, Brasil", "Chuvas de Verão","Eu Sei Que Vou Te Amar", "Tieta",etc. Com dois novos projetos prontos (os inéditos "Brava Gente Brasileira" e "Milagre em Juazeiro") e já analisando novas propostas, Mair ainda conseguiu nos encaixar na sua atribulada agenda p/conversar.
SC- O que te impulsionou a trabalhar em Cinema, caro Sr. Tavares? Mair Tavares Foi a falta de dinheiro mesmo, Marco (risos) SC-Tudo bem que não tenha sido uma razão mais romântica, mas por que Cinema? Mair Tavares Eu estudei Arquitetura e até trabalhei um pouco com Decoração de Interiores, mas meu pai morreu e eu acabei indo trabalhar com o David Neves ( Cineasta Carioca falecido há poucos anos). C/ele fiz...o "Memória de Helena" (como Diretor de Produção e ator) e trabalhei em outros filmes que eu já nem lembro mais(risos). Depois fui fazer Assistência de Montagem em "Terra Em Transe" ( Montado por Eduardo Escorel, Dirigido por Gláuber Rocha). Naquela época era mais fácil do hoje passar de Assistente para Montador, sabe? SC- Qual foi o primeiro longa-metragem que fostes Montador? Mair Tavares Deixa eu ver...hmmm...não lembro não (risos) SC- Foi lá por '71, certo? Mair Tavares Acho que você está certo, naquela época, trabalhei em "Lúcia McCartney" ( na verdade, um ano antes ele trabalhara em "Pecado Mortal", de Miguel Faria Jr.-brevemente entrevistado nas nossas páginas- aclamado nos Festivais de Brasília e Veneza) SC- Claro!, certo? "Lúcia McCartney", de David Neves com Adriana Prieto Mair Tavares Isso! SC- E como foi que conhecestes Carlos Diegues, que foi um dos mais constantes parceiros profissionais teus? Mair Tavares Acho que trabalhei mais com o Ruy Guerra... SC- Por sinal, montastes o filme que ele dirigiu há pouco, "Estorvo" ( Mair também Co-Produziu este representante do Brasil em Cannes Mair Tavares O Cacá me chamou pois havia rompido com o Montador Eduardo Escorel e então me chamou para fazer o "Xica Da Silva"... SC- E o Ruy Guerra? Mair Tavares O Montador do "Opera do malandro"era louco (risos) e daí o Ruy me chamou! SC- Montastes também "Fabula da Bela Palomeira, certo ( baseado na obra de Gabriel Garcia Marquez que co-escreveu o Roteiro com Ruy Guerra-o filme foi pessimamente lançado nos Cinemas Brasileiros)? Mair Tavares É, montei. SC- Foi dificílimo para mim assistir o filme, pois estava morando nos EUA, mas consegui assistir "The Fable Of The Beautiful Pigeon Fancier" (título em Inglês do filme) Mair Tavares (risos)É realmente difícil ver filmes Brasileiros lá fora... SC- Se já é difícil passarem aqui no Brasil (risos). Fale um pouco do seu processo criativo...o que fazes para descobrir o ritmo que cada filme precisa ter? Como fazes essa sintonia? "Ele, O Boto", tem um ritmo e um estilo de Montagem completamente diferente de "Chuvas de Verão", que por sua vez move-se diferente de "Quilombo"... Mair Tavares Quando se monta um filme, normalmente se tem muito material...umas 20 horas (para uma média de duas horas quando finalizado); Quando se vai alinhavando, os planos que não interessam eles vão caindo por si próprios. Isso é algo natural...a própria montagem te dá isso, os planos começam a sobrar, aí você vai alinhavando mais até chegar no resultado que você quer. SC- Fica quase instintivo, então? Mair Tavares Eu não diria instintivo, pois Montagem não é apenas isso,... SC- Eu quis dizer no sentido de se sentir que os planos estão sobrando, pedindo para cair... Mair Tavares É instintivo pois você coloca aquilo de uma forma já tão específica que os planos que não interessam caem, normalmente é isso...à vezes, o cara também monta mal, mas enfim...(risos) SC- (risos) Comente um pouco sobre o teu processo de montagem nestes dois filmes em que eu considero o teu trabalho memorável, "Bye Bye, Brasil"e "Estorvo", o primeiro tem um estilo de crônica de costumes melancólico já o segundo é super fragmentado... Mair Tavares Na verdade, os dois filmes são montados diferentemente; O Cacá vai alinhavando mais e mais e deixando mais curto com o tempo. O Ruy já é mais definitivo, ele já é mais específico. Com o Cacá a gente faz o primeiro, o segundo, o terceiro corte... SC- E como foram as tuas experiências em "Ele, O Boto" e "Lira do Delírio"? Mair Tavares Olha, o "Lira..." é estranho de contar, pois durante a montagem a Anecy Rocha (estrela do filme) morreu, e então o filme virou uma coisa muito maior do que eu pensava, enfim...eu nem lí o roteiro. Muitas veze eu leio o roteiro só por que existe, mas nesse caso, procurou-se uma coisa que fosse mais redonda, onde o começo fosse o fim... SC- Uma narrativa circular? Mair Tavares Isso mesmo. E conseguimos. O filme ficou bem-feito. Eu até o revi recentemente, coisa que não gosto de fazer (risos), e achei que ficou bom... SC- Porque não gostas de rever os teus trabalhos? Achas que podes te frustrar e pensar que poderia ter feito algo diferente? Mair Tavares Olha, Marco, a montagem acaba quando termina o dinheiro do Produtor... SC- (risos) E "Ele, O Boto"? Mair Tavares Olha, esse filme já foi algo um pouco mais conflitado devido a uns probleminhas com o Walter ( lima Jr., Diretor, Co-Roteirista e Co-Produtor da comédia), mas o filme é bom. SC- Também assisti lá fora: "The Dolphin"(título em Inglês do filme) Mair Tavares (risos). Eu acho um pouco comprido demais, mas enfim... SC- Comente um pouco o seu trabalho em "Quilombo", pois apesar de terem praticamente só comentado no Brasil os supostos estouros de orçamento, eu acho que a produção tem o seu valor. O filme mistura estilos como o realismo e o realismo fantástico... Mair Tavares O Cacá gosta disso nos seus filmes... SC- Sim, "Chuvas de Verão" também, por exemplo, apresentava um clima onírico, mas em "Quilombo"isto parece muito mais acentuado. Podes falar para os nossos leitores como foi montar "Quilombo"? Mair Tavares Tudo bem, é uma pergunta genial, mas outro dia, por exemplo, me perguntaram sobre a Montagem do "Lira do Delírio" que já tem 23 anos e agora "Quilombo" (risos) eu me lembro muito pouco na verdade. Lembro que se filmou muito e caiu-se muito naquelas armadilhas de grande produção, onde muito dá errado. Faltava experiência naquilo. O (Luís Carlos)Ripper ( Desenhista de Produção e Figurinista, já falecido) achava que iria construir recifes, etc. e o dinheiro e o tempo foram apertando, as pessoas não tinham experiência naquilo. As cidades por exemplo, só ficaram prontas na hora de serem destruídas ( pelos personagens Portugueses). Isso acontece em muito filme, mas sabe como é, o Cinema Brasileiro ainda é precário... SC- Um filme que montastes que apesar de eu já ter assistido mais de duas vezes, só notei o teu nome há pouco foi o sucesso Internacional "Eu Te Amo". Podes falar um pouco sobre teu trabalho nesta fita? Como foi o teu trabalho com o Diretor Arnaldo Jabor? Mair Tavares O Arnaldo Jabor é muito interessante, é uma pessoa que tem um humor muito específico, é uma pessoa que debocha de si mesma, e sabe o que quer com muita clareza SC- Mas e o processo de montagem, como foi? O filme tem vários estilos e ritmos. Em alguns momentos no início é rápido, depois-nas cenas entre Sonia Braga e Paulo C. Pereio fica mais lento - mais tarde, como nos momentos em que o piloto interpretado por Tarcísio Meira aparece em cena é montado freneticamente. Podes falar um pouco disso? Mair Tavares O filme era originalmente muito grande, assim vários personagens não resistiram à montagem final, como o Nuno Leal Maia (que já havia contracenado com Braga em "A Dama do Lotação")... SC- Por acaso o Marcus Vinícius que aparece em poucas cenas também foi uma dessas baixas? Mair Tavares Ele não lembro, mas acho até que o Joel Barcelos (astro de "O Desafio", "Rio Babilônia", etc), muitos personagens tivemos que cortar para encurtar a duração do filme. SC- é mesmo? Alguns personagens desapareceram por completo, pois não há sinal de Nuno Leal Maia na cópias disponíveis de "Eu Te Amo"... Mair Tavares O Luís Fernando Guimarães também acabou não tendo sua cenas usadas no corte final, ele interpretava um instrutor de dança...o filme iria ficar muito longo se usássemos tudo; Nós optamos pela forma mais curta e mesmo assim ainda é grande a duração...tem 01h e 40mins...
NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo www.sitedecinema.com.br para ilustrar os talentos citados.
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