Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site. Nesta semana, estamos orgulhosos de contar c/um dos maiores Cineastas vivos do Brasil: Carlos (cacá) Diegues. Ponto de referência Internacional do Cinema Brasileiro e um dos fundadores do movimento Cultural conhecido como Cinema Novo, este artista foi um dos poucos que freqüentemente atraiu expressivo público e boas reações da crítica especializada aos seus filmes sem necessariamente apelar p/o sensacionalismo modista ou auto-indulgência estética. Na sua filmografia constam obras como o episódio "Escola de Samba Alegria de Viver" da clássica antologia "Cinco Vezes favela", "Ganga Zumba", A Grande Cidade" e até os diálogos para o primeiro êxito de Renato Aragão, "Adorável Trapalhão" (em '66!).
SC- O que o Cinema Novo lhe deixou como herança criativa ou de método de trabalho? Cacá: O Cinema Novo deixou para todos nós, veteranos ou jovens cineastas, um exemplo de liberdade e coragem, de amor ao cinema e a seu papel humanista. Eu não diria que o CN criou um "método de trabalho" específico, mas que consagrou um modo de fazer adequado à realidade brasileira, sem ilusões sobre em que país os nossos filmes estavam sendo feitos. SC- Considerando que o senhor foi um dos 'cabeças-chave' do citado movimento cultural, muitos admiram-se c/o seu estilo clássico, bem-cuidado ao extremo e o acabamento nada "porra louca" (no sentido artesanal da expressão) de seus filmes, c/estilo que parece mais influenciado por Nick Ray ( Diretor de "Juventude Transviada", etc)por exemplo, do que Godard ( "Acossado") O senhor pode comentar um pouco sobre isso? Cacá: O Cinema Novo não consagrou um estilo único de fazer cinema. Muito pelo contrário, sempre defendíamos a expressão artística de cada realizador como um postulado indispensável ao bom cinema. A "política de autor" foi uma das bases teóricas de nossa produção. Assim, é dificil falar de um "estilo CN", como se todos os filmes fossem feitos do mesmo modo. Visto assim, não há nada em comum entre a poesia barroca de Glauber Rocha e o lirismo social de Nelson Pereira, entre o racionalismo rigoroso de Joaquim Pedro e o romantismo deslavado de Paulo C.Saraceni. No meu caso, desenvolvi interesse por um certo estilo de espetáculo que, no tempo, tenho a impressão, se aprimorou, tornou-se mais pessoal e mais claro. Mas também experimentei e continuo a experimentar variações muito grandes entre um filme e outro. Por exemplo, é dificil encontrar o que há de comum entre os meus filmes "Joanna Francesa" e "Xica da Silva", ou entre "Veja esta canção" e "Tieta do Agreste". SC- A Direção de Atores em seus filmes é MUITO boa, inclusive quando o senhor lida c/gente sem muita experiência na área ( Guilherme Fontes-em "Um Trem Para As Estrelas", Rita Lee em "Dias melhores Virão", Príncipe Nabor em "Bye Bye, Brasil", etc ) e c/veteranos que , na minha opinião, tem a tendência, quando dirigidos por outrosoutros cineastas, de exagerar ( Marília Pêra, José Wilker, Carlos Kroeber) Por favor fale um pouco aos leitores do www.sitedecinema.com.br sobre o seu método/'modus operandi' de Dirigir atores. Cacá: Na vida real, as pessoas se comportam cada uma a seu modo. Ou seja, se você chega a um lugar e o observa de fora, percebe que ninguém age, fala, se comporta, "interpreta" da mesma maneira. Meu ideal é transportar essa multiplicidade para dentro dos filmes. Detesto esses filmes em que todo mundo interpreta da mesma maneira, seja de um modo stanislavskiano histérico ou naturalista convencional, para mim o filme se enriquece com estuilos de interpretação opostos e conflitantes, como no caso de extrema beleza de "Vidas Amargas", de Kazan, quando Raymond Massey e James Dean contracenam. Assim, dirijo meus atores a partir deles mesmos e não dos personagens que eles vão fazer. Procuro descobrir o que cada um deles tem a oferecer, de mais original e autêntico, e os incentivo nessa direção. Em geral, gosto de conversar com eles em separado, dar instruções diversas e às vezes até conflitantes, para que não se perca o frescor de cada um. SC- Conte p/gente como funciona o seu processo criativo de visualização do material escrito, traduzindo o texto p/imagens e sua parceria c/Fotógrafos de estilos tão diversos como Dib Lufti, Lauro Escorel, Edgar Moura, Affonso Beato (entrevistado no site há cerca de um mês e meio). Cacá: Quando escrevo um roteiro, já imagino, em geral, as imagens a que ele se refere. Não gosto de roteiros "literários", os meus são quase sempre muito compactos, para que a imagem que ele gerar seja sempre nova e surpreendente para todo mundo envolvido no filme. Adoro fotografia, me interesso muito pela tecnologia do cinema, por isso sempre me envolvo com o conceito dela em cada um de meus filmes. Por outro lado, sempre dei a sorte de trabalhar com os melhores fotógrafos do Brasil, verdadeiros gênios de seu ofício, e todos eles participaram intensamente da criação de meus filmes. SC- O belíssimo "Bye Bye Brazil" pode ser interpretado como uma alegoria sobre a devastação do Brasil 'inocente' e simples(representado pela caravana ROLIDEI e sua tripulação mambembe) frente ao avanço predatório da modernidade (a TV manteém as pessoas em casa, alheias às expressões outrora populares). Já o elogiado-e popular- "Orfeu"foi co-produzido pela 'Globo Filmes'. Como o senhor vê esta assocoação? O senhor acha esta parceria a longo prazo predatória/perigosa? Cacá: "Bye Bye Brasil" não é um filme contra a televisão, mas sobre seu papel na transformação que a cultura brasileira sofreu a partir dos anos 70. O filme pode ser visto tanto como um canto melancólico ao fim de uma cultura, quanto como um elogio eufórico a uma nova civilização. Foi no equilibrio entre esses dois extremos que o filme se fez. A participação da Globo Filmes no "Orfeu" não tem rigorosamente nada a ver com isso. Há anos, pelo menos duas décadas, que repito constantemente: como no resto do mundo, o cinema nacional brasileiro vai estar sempre com seu futuro comprometido se não criar uma parceria permanente com a televisão. É assim no mundo inteiro, dos Estados Unidos à China, do Iran à França, não há por que o Brasil ser uma exceção. "Um trem para as estrelas" tinha um contrato de pré-venda para TV, "Dias melhores virão" estreiou na TV Globo, "Veja esta canção"´foi uma co-produção com a TV Cultura. Essa luta é antiga e, espero, tem que desaguar num grande acordo entre TV e cinema que beneficie a produção cinematográfica independente de nosso país. NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo www.sitedecinema.com.br para ilustrar os talentos citados.
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