Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

Leopoldo Serran concedeu esta entrevista a Marco Freitas do www.sitedecinema.com.br recentemente. Extremamente versátil, seu ouvido para diálogos naturalistas e personagens bem construídos o colocaram numa posição invejável na Cinematografia Nacional, como o mais requisitado Roteirista de Cinema do Brasil. Ex-estudante de Direito, aos 20 anos escreveu o já clássico " Ganga Zumba" (ainda na faculdade) e um pouco depois " A Grande Cidade". Ingressou na Agência Reuters de notícias como tradutor de notícias estrangeiras e depois foi tor de algumas das principais agências de Publicidade do país por cerca de 06 anos, mas sem deixar de lado a sua principal paixão: escrever para Cinema. No final da década de '70, decidiu dedicar-se quase que exclusivamente a este talento.

Leopoldo Serran
cena do grande sucesso "Nos Embalos de Ipanema"

 

"Estrela Sobe" (74) foi escrito na época em que escrever Roteiros era uma função meio-turno para o senhor?

- Sim, "Dona Flor E Seus Dois Maridos" (76) também, fiz também o...o...

Marília E Marina"( ) ?

- "Marília e Marina" também, Marco, e..." Um Certo Capitão Rodrigo" ( de Anselmo Duarte, realizado em 71)

Podes comentar a sua experiência com o Cineasta Antonio Calmon ( Diretor do ótimo "Menino do Rio", de "Garota Dourada", etc) em duas comédias eróticas bem representativas da década de 70, "Gente Fina é Outra Coisa" e "Embalos de Ipanema"?

- Eu trabalhei com ele e o seu Produtor Pedro Carlos Rovai que era bastante influente em todos os filmes que produzia. Trabalhar com eles foi um pouco difícil, pois eles sempre queriam mais sexo do que o que eu achava necessário...(risos). Em "Embalos..." eu basicamente escrevi o personagem do surfista ( interpretado por André Di Biasi, protagonista e co-Argumentista de "Menino do Rio", etc)...

E o seu trabalho com Cacá Diegues?

- Nos conhecemos já há anos, por sinal eu até ia trabalhar no " Orfeu", mas a idéia da história foi mudada e eu caí fora. Eu não tenho absolutamente nada a ver com o filme...absolutamente nada.

E o seu trabalho com ele em "Bye Bye, Brasil" (79) ?

- Olha, isso foi um trabalho de Argumento, eu não escrevi o Roteiro, mas a previsão feita pelo filme que a cultura caipira iria acabar se comprovou completamente equivocada, pois hoje em dia é ela (a moda caipira) que manda no país...(risos)

Comente um pouco o seu trabalho com o Bruno Barreto, em "Gabriela"...

A intenção do projeto foi fazer uma produto comercial internacional, eu fiz vários filmes com eles (a família de Cineastas Barreto), ...

Sim, eu sei..."A Estrela Sobe"...

"Amor Bandido", "Dona Flor...", "O Que é Isso...", olha Marco, eu andei um pouco afastado, pois eu sou muito briguento...arrumei muita confusão, eu tenho sensibilidade `a flor da pele...eu sempre briguei a favor do filme, nunca por vaidade, sempre foi para melhorar a qualidade, nunca por problemas pessoais...

Podes falar um pouco mais do seu trabalho em "Gabriela", pois apesar de não ser muito fiel ao livro, também adaptar tudo para um filme de duas horas, é quase impossível, mas é um filme que eu particularmente gosto, me lembra muito aquelas comédias Italianas com o Ugo Tognazzi...

- Marco, o Roteiro do "Gabriela" foi um Roteiro que eu escrevi inteiro, mas depois ele foi re-escrito...entâo este é um roteiro que é mais ou menos meu...foi uma coisa muito mexida, por sinal, algo que acontece muito no trabalho de um Roteirista. Eu tenho parte da responsabilidade por ele mas não tenho toda...(risos)

Voltando um pouco no tempo, e o teu trabalho no "Estrela Sobe"?

- Este eu escrevi do início ao fim, embora outros éstejam também nos créditos. O Bruno Barreto e o Cacá realmente trabalharam um pouco no levantamento da estrutura, mas o Roteiro eu escrevi do início ao fim. Na época, isto de crédito era uma coisa mais desorganizada...hoje não...hoje eu já entro num projeto com muita clareza...filme que eu escrevo, sou eu que escrevo.

Já que estamos conversando sobre tuas parcerias, fale um pouco do seu trabalho com Eduardo Coutinho em "Dona Flor..."

- Nós pegamos o livro e fizemos ...eu acho que foi um Roteiro muito bom a partir daquele livro extenso. O Eduardo foi fundamental, pois ele chamou a atenção para algo fundamental: as receitas da Dona Flor. Eu não queria colocar aquelas narrações de receitas e ele me chamou a atenção para aquilo. Nós trabalhamos juntos, escrevemos juntos e foi muito bom, este foi um caso o crédito está correto, o Roteiro é meu e do Coutinho.

Um trabalho seu que eu gostaria que comentasse é o Roteiro de "Eu Te Amo"...

- Certas vezes você escreve tudo e não ganha crédito e outras você é creditado por coisas que não fez. O "Eu Te Amo" foi um caso parecido com "Bye, Bye Brasil"; Eu trabalhei no desenvolvimento do Roteiro, mas no resultado final, não. No "Tudo Bem" que o Jabor também dirigiu, eu escrevi, com o Arnaldo e aquele roteiro eu sou parcialmente responsável.

E o seu trabalho no polêmico Roteiro de "O Que É Isso..." e no recente " Até Que a Vida Nos Separe"? No caso do "O Que É Isso,..." eu não li nada de ti a respeito daquela discussão sobre mudar a realidade, não mudar, fazer uma recriação da realidade, etc

- O negócio é o seguinte, Marco: o rapto do embaixador no livro do Gabeira ocupa uma porção irrisória...umas dez páginas e é narrada de um forma muito defensiva, muito política, então alí não tem nada dramaturgicamente interessante, pois eles pegaram o Americano, pediram o resgate e logo soltaram o cara. Dramaturgicamente não havia nada de tensão...mas num relato que o Gabeira fez, ele contou que o Jonas, que era o codinome de um deles, ameaçou todos de morte, dizendo que se alguém deles não obedecesse ele mataria. Isto me despertou interesse ao escrever o Roteiro, uns garotos ali e chegam dois caras mais velhos, de fora, de São Paulo e alí eu vi que poderia ter uma tensão na história. Agora, o problema é que as pessoas acham que por que o codinome Jonas ficou, por que no filme usamos o nome que ele usava para ocultar a sua identidade ficou na versão final do filme, tem gente dizendo que o nom revela quem ele era...isso é uma grande bobagem eu acho...as pessoas que participaram disso, boa parte delas acha que aquilo foi algo tão grandioso nas sua vidas que o resto de suas vidas tem um certo anti-cliímax, eles ficaram muito ligados nessa bobagem...voltando ao assunto do Roteiro, eu posso dizer que o resultado foi muito feliz, o filme também eu gostei, foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro...apesar de eu não levo este negócio de prêmio muito à sério...mas a esquerda não gostou, essa genteanda em bando, tentando me aporrinhar a vida ...

E o seu trabalho com José Zaragoza em " Até Que a..." ?

- O Argumento é do Zaragoza, e é bastante interessante, pois ele pega aspectos da vida consumista da classe alta Paulista como a dissolução da família, a adolescência prolongada...

O filme trata isso até de forma bem irônica...

- Certo, certo. Aí eu peguei essa visão deste mundo e escrevi a partir disso...o problema parece ser que no Brasil só se pode escrever sobre os excluídos...

E vale dizer que esta idéia de só se retratar a miséria é uma idéia completamente burguesa.

- Nós estamos passando por uma ideologização e idealização de tudo. Ideologizaram a cultur, a religião, e ideologia, como se sabe, é a arma dos débeis mentais. é uma coisa triste...

NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo www.sitedecinema.com.br para ilustrar os talentos citados.  

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