Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

Walter Carvalho entrou no mundo do Cinema levado por seu irmão, o Documentarista Wladimir Carvalho, (responsável pelos aclamados "O Evangelho Segundo Teotônio", "Conterrâneos Velhos de Guerra", etc) no censurado "O País de São Saruê, finalizado no final da década de '60 ( Walter foi Assistente de Manuel Clemente). Ao ingressar na faculdade de Desenho Industrial em 1970, Walter, contou no currículo universitário com uma cadeira de Fotografia e ali começou a interessar-se mais e mais pela arte de fotografar. Em '73-'74 fotografou "O Boi de Prata", em pleno sertão do Rio Grande do Norte ( Dirigido por Augusto Ribeiro Júnior ) seu primeiro longa como Diretor de Fotografia em ficção. Desde então, vem acumulando elogios da crítica e de seus colegas de trabalho, sendo premiado com o mais importante prêmio da classe Fotográfica mundial: o Golden Frog no Festival CamerImage '98 em Torun, na Polônia, por seu trabalho no multi-premiado "Central do Brasil" ,além do Candango de Melhor Fotografia por "Pequeno Dicionário Amoroso" no Festival de Brasília-'96. Com um currículo destes, só poderia estar cada vez mais ocupado - e está. Já tem vários projetos finalizados, inclusive três dos mais esperados filmes do ano: "Abril Despedaçado" (sua mais recente parceria com Walter Salles Júnior), "Lavoura Arcaica" ( adaptação da obra literária homônima), "Amores Possíveis" ( Mais uma vez com Sandra Werneck e ovacionado no último Festival de Sundance) e "Janela Da Alma" ( Dirigido por Walter em parceria com João Jardim)- mesmo ocupado, Walter encaixou um tempo na sua agenda para conversar com Marco Freitas do SERESTAR sobre sua vida e carreira.

A Difícil Viagem
Walter Carvalho fotografando "O Primeiro Dia"


MF- Como foi a sua experiência fotografando "A Difícil Viagem" ('80), estrelado por Paulo José ( "Todas As Mulheres do Mundo", "Policarpo Quaresma", etc) e Zaira Zambelli ( "Os Embalos de Ipanema", "Bye Bye, Brasil", etc)

W- Foi boa, eu andava trabalhando muito em documentários, pois na verdade eu entrei no Cinema, pela porta dos documentários. O filme foi rodado nas margens do Rio Araguaia e a Direção foi do Geraldo Moraes ( de "Círculo de Fogo" e "No Coração Dos Deuses")

MF-O senhor fotografou o belo "Pedro Mico" ('85), de Ipojuca Pontes ( de "A Volta Do Filho Pródigo", "O verão De Ipanema"), certo?

W- "Pedro Mico". Isso mesmo.

MF- Podes me falar um pouco do seu trabalho no filme?

W- Olha, eu não tinha tanta experiência na época e como todos os meus trabalhos, foi difícil, pois eu considero o meu trabalho de Diretor de Fotografia em Cinema uma função bastante complexa...eu ainda acho isso hoje, imagina naquela época...e também pela primeira vez tive que iluminar um ator de cor negra ( Pelé) em grandes seqüências feitas à noite; Lembro que muito pesquisei e estudei como expôr o filme...

MF- Sem contar a dificuldade que deve ter sido fotografar o Pelé junto do grande Ivan Cândido ( "Barra Pesada", "Urubus e papagaios", etc), que é praticamente o seu oposto em matéria de cor da pele...

W- Sim, e com a cabeça branca! (risos)

MF-Trabalhastes junto do Diretor de Arte Régis Monteiro ( "Amante Latino", "As Borboletas Também Amam", etc) e do Arquiteto Oscar Niemeyer, que fez o design da casa do personagem-título?

W- O Oscar fez o desenho do barraco habitado pelo Protagonista, o Régis, que fez a Cenografia do filme, fez um excelente trabalho, mas foi o único filme que fizemos juntos.

MF- Voltando um pouco no tempo, fostes Operador de Câmera em "Quilombo" ('84), correto?

W- Eu trabalhei quatro semanas no filme...

MF-Lado a lado com o Lauro Escorel ( "Dias Melhores Virão", "IronWeed", etc), o Diretor de Fotografia do filme?

W- Com o Lauro Escorel. Mas como o filme atrasou naquela época, eu, com outros compromissos, saí fora...

MF- E o teu trabalho com Zelito Viana"(confira a entrevista feita com Viana no índice de entrevistas) em "Villa-Lobos" ('98)? Como foi a interação do conceito de Fotografia com a linha básica do filme, já que a história se passa em vários peródos da vida do maestro? Acho também importante citar para quem não viu o filme, que a aparência do filme é de uma produção 10 vezes mais cara, no mínimo...

W- É..."Villa-Lobos", tem uma aparência assim, talvez também pela sofisticação dos resultados de imagem...

MF- Foi filmado com câmera PanaVision, certo?

W- Foi a primeira vez se trouxe para o Brasil uma câmera PanaVision para se filmar uma produção Brasileira. Já haviam usado PanaVision aqui, mas para filmar produções estrangeiras. Nós trouxemos DUAS câmeras para "Villa-Lobos". A importância da câmera, Marco é grande, mas isso tudo se dilui dentro do processo criativo se o que estiver diante dela, pois não adianta você ter a melhor câmera do mundo e não ter diante dela o que filmar. Isso é só uma ressalva a respeito da câmera...quanto ao filme, nós tínhamos uma ...linha da história, já que o filme tinha uma narrativa fragmentada, a trama vai e volta no tempo...

MF- Na verdade o filme é, na verdade, um flashback do protagonista, certo?

W- Exato! O filme é um flashback dele...num momento quem conduz a história é o Villa-Lobos de uma idade, depois ele em outro período da sua vida, logo mais em outro...para te falar a verdade a gente tratou de fazer uma diferenciação, através do uso de filtros, do período da infância do protagonista. Nestas cenas a fotografia tendia a ter um pouco mais de brilho, valorizando-se mais os brancos, numa alusão muito sutil à questão da beleza da infância. Eu, quando eu penso na minha infância, eu penso em imagens com a luz mais clara do que eu vejo hoje; Não sei o porquê disso, mas eu tentei imprimir essa idéia absolutamente subjetiva da minha cabeça naqueles trechos do filme. Depois com ele adulto, seja quando é interpretado pelo Marcos Palmeira ( visto em "Dedé Mamata", "Anahy De Las Missiones", etc) ou pelo Antonio Fagundes ( "Doramundo", "Gaijin", etc), eu procurei não fazer muita diferenciação na luz, para não criar um elemento que pudesse confundir as coisas, eu tentei apenas registrar a época e não criar mais um elemento cromático à história contada.

MF- Não te importas de irmos para a frente e para trás no tempo aqui também na entrevista?

W- De forma nenhuma.

MF- Então, por favor comente um pouco o seu trabalho nos êxitos de bilheteria: "Com Licença, Eu Vou À Luta" ('86) de Lui Farias (já entrevistado no site) e "Os Trapalhões E O Auto Da Compadecida" ('87) , dirigido por Roberto farias, Pai de Lui.

W- "Com Licença,..." foi um filme passado na zona norte do Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, e foi um dos mais vistos nos cinemas naquele ano...

MF- A Fotografia era um pouco crua...

W- Despojada! Exatamente! Como se fosse até...como se tentássemos reproduzir o tom dos...azulejos da baixada! Algo que tivesse as características do espaço, do local em que a história se passava; Eu não acho que se deva interferir muito na Fotografia, eu acho que se deve ENCONTRAR a fotografia dentro do Roteiro, sem tentar inventá-la. Eu acho que hoje em dia, está se buscando trazer o novo dentro de um processo imagético que está levando tudo, cada vez mais, à banalidade da imagem.

MF- Estou te perguntando isso pois a sua Fotografia em "Central do Brasil" ('97) (apesar do Roteiro deste também, como "Com Licença,..." ser sobre pessoas muito humildes vivendo em ambientes paupérrimos) é bastante diferente do filme do Lui Farias...

W- Os princípios que regeram as idéias do "Com Licença,...", na verdade, foram comuns aos que regeram "Central...". O que tem no "Central..." de diferente para o "Com Licença,..." no ponto de vista do enquadramento, por exemplo, é que no "Central...", filmamos no formato CinemaScope (mais retangular) e no filme do Lui, a janela (a dimensão do quadro) era...era...

MF- 1:85 (relação das dimensões do quadro)

W- 1:66.

MF-E a Fotografia, até bastante elaborada, de "Os Trapalhões E O Auto Da Compadecida" ?

W- Este é um filme em que partimos para uma atmosfera mais lírica, apesar de ser uma comédia...

MF-O que me lembro que me chamou a atenção, foi que o filme parece usar umas quatro paletas cromáticas, separando as seqüências passadas no céu, no inferno, etc...

W- É! Exatamente! Eu imagino, por exemplo, que a luz do céu seja bem diferente da do inferno...por isso eu adoraria ver a luz do inferno! (risos) Como dizem que tem muito fogo lá, eu imagino que tenha tons quentes! Ao passo que o céu, é só a gente inclinar um pouco a cabeça para cima para olhar, tem as cores claras e azuladas...e o purgatório, que não é nenhuma coisa nem outra, eu decidi por um tom laranja, sem apelar para o vermelho, tendendo mais para os marrons...o restante do filme é uma Fotografia alusiva ao sertão Paraibano, ao sertão de Ariano Suassuna (autor da obra "O Auto da Compadecida")

MF- Fale um pouco sobre a sua parceria com Sandra Werneck em "Pequeno Dicionário Amoroso" ('95), Walter...

W- Este é um filme atípico, pois ele nasce como um filme que seria um documentário ficcionado, e eu já tinha uma experiência profissional com ela, em documentários, uma parceria cinematográfica, o que ela chama de PAIXÃO CINEMATOGRÁFICA. E a intenção inicial não era nem do filme ser um longa, mas na medida em que o projeto foi iniciando-se, viu-se que poderíamos abranger mais assuntos...aprofundando mais os personagens, aumentando portanto as participações dos personagens. O "Pequeno..." foi filmado em duas etapas, pois a nossa protagonista, a Andréa Beltrão ( de "A Cor do Seu Destino", "Garota Dourada", etc) engravidou, e daí esperamos quase um ano para recomeçar. A Fotografia do filme é urbana, já que é uma comédia alegre, uma Fotografia despretensiosa...

MF- Sem grandes atmosferas?

W-Sem grande atmosfera, isso! Mas criamos determinadosclimas para os personagens, com muita sutileza e delicadeza como a seqüência da separação sobrepondo imagens sobre imagens...eu filmei a imagem da Andréa, no momento da separação da personagem dela com o Daniel Dantas ( "Jenipapo", "Cronicamente Inviável", etc), e depois dentro desta própria cena, ela vendo a sua separação, e isto não foi feito com nenhum aparato tecnológico em pós-produção, efeitos especiais, etc, eu apenas filmei a primeira cena e depois voltei o filme e rodei a outra cena por cima desta, ou seja, filmando duas vezes o mesmo negativo!

MF- E a sua parceria com Walter Salles Júnior ( Diretor de "A Grande Arte", "Central do Brasil", etc) em "Terra estrangeira ('95), rodado em preto e branco?

W- Eu tive a felicidade de ser convidado pelo Walter para fazer um filme que já era para ser em preto em branco desde o começo, desde quando ele me convidou! Quando eu entrei para o Cinema de ficção, filmar em P&B estava em plena decadência, era uma prática cada vez menos exercida...eu já havia feito trabalhos em P&B, como o documentário do meu irmão "Homem de Areia"(sobre a revolução de '30, finalizado em '80), por exemplo. Mas não muito antes do "Terra..." eu havia feito com o Walter o documentário "Socorro Nobre" ('94)...

MF- "Socorro Nobre" foi basicamente a gênese de "Central do Brasil", correto?

W- Isso mesmo. No "Socorro..." eu redescobri um pouco da Fotografia em P&B e me preparou um pouco para o "Terra..."

MF- "Terra..." foi filmado em 16mm ao invés de 35mm, certo?

W- Foi. Em Super16mm e ampliado para 35mm...

MF- Podes comentar um pouco a sua experiência, filmando um projeto em uma bitola e depois ampliando? Quais os cuidados que tomastes para não teres perda na qualidade, para evitar o excesso de granulação no resultado final?

W- Bom...o excesso de grão pode ser evitado não se subexpondo o filme na revelação do filme...na medida em que há uma preocupação de se iluminar os brancos das cenas; Por outro lado, há uma impossibilidade de não tornar-se o grão visível na ampliação, pois se está ampliando o fotograma quase cinco vezes a partir do seu tamnho original. Uma outra forma que eu faço para minimizar o grão é no processo de copiagem do filme, se trabalhar com a marcação de luz densa, com uma densidade de luz mais forte, assim, ajudando a esconder a granulação excessiva...mas deixo claro que não se elimina completamente. No "Terra..." o grão é visível em alguns momentos, só que faz parte destes momentos. Para me preparar para a realização do "Terra...", eu fui até a Cinemateca do MAM, e vi vários filmes das escolas Européias e Americanas feitos nas décadas de '40, '50 e '60, tudo que foi possível assistir lá, projetados, eu vi! Nada contra assistir filmes em vídeo, mas eu precisava entender e me acostumar à ideia da imagem PROJETADA do P&B e não da imagem videografada do P&B.

MF-Não usastes como influência na Fotografia de "Terra..." o que é muito comum usar-se quando outros fotografam em P&B, que foi o período dos anos '20 e '30 calcado no expressionismo Alemão?

W-Pode até ser que eu tenha sido influenciado por isso, mas mnão posso dizer que tenha sido delibarado...pode ter vindo de uma forma subjetiva, pois na verdade, um Fotógrafo moderno a quem prestei muita atenção foi o Robby Müller ( "Paris, Texas", "Alice na Cidade", etc) e o Henry Alekan ( "Asas do Desejo", "A Bela E A Fera"- versão de '46), além do Gordon Willis ( "Manhattan", "Zelig"), mas eu não quis fazer igual a ninguém, até pois estes são pessoas geniais...

MF- O teu orçamento foi muitas vezes menor do que eles dispõe ou dispunham...

W- Sim, mas falo na estrutura conceitual, mesmo...

MF- E aquela produção meio 'samba-do-crioulo-doido' ( visão estereotipada do Brasil), "Si Tu Vas À Rio, Tu Meurs ( Dirigido pelo mestre da comédia Francesa Phillipe Clair, de "Par Ou T'És Rentré? On T'A Pas Vou Sortir" estrelado pelo mítico Jerry Lewis) ?

W- Esta foi uma comédia produzida pela empresa Gaumont, e como não poderia deixar de ser, procurava o exótico do Rio de Janeiro, com a praia, o samba,...

MF- Travestis, etc ( Roberta Close está no filme)

W- Travestis e etc! E eu como profissional, fui convidado para trabalhar no filme e aceitei. Por sinal, foi o primeiro filme rodado aqui no sistema Super35mm para CinemaScope. Apesar de ter esta característica de visão de alguém de fora, isto não é PRIVILÉGIO de estrangeiros, pois na verdade, muito do que se vê nas novelas das 8, e realizadas por Brasileiros são estúpidas. Por sinal, "Chico Rei" e "O Monge E A Filha do carrasco" são filmes financiados por estrangeiros no Brasil e tem uma visão mais correta e fiel do nosso país que muita coisa realizado aqui por gente daqui!

NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo www.sitedecinema.com.br para ilustrar os talentos citados.  

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