Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

Arturo Uranga é um dos seres mais criativos que já entrevistei; Seu conhecimento técnico aliado a uma meticulosidade e habilidade artesanal além de um embasamento cultural extraordinário fizeram deste Argentino de 65 anos um dos artistas mais requisitados do Cinema e televisão da América latina. Um dos pioneiros no Brasil na técnica de pintura em vidro para super imposição de imagens filmadas chamada de Glass-Painting, e de inserção de pinturas em cenários já pré-filmados através de efeitos ópticos (Matte-Painting), ele foi um dos responsáveis pelo visual futurista requintado- apesar do orçamento restrito- de "Princesa Xuxa e Os Trapalhões" ('88), e "O Trapalhão e a Luz azul"(2000), bem como a cenografia do aclamado "Noite" ('84), além do originalíssimo "Era Uma Vez..."('91), este último seu debut como Diretor de longas.

Técnica de perspectiva forçada, com miniatura de nave interestelar e elenco ao fundo em "Princesa Xuxa e os Trapalhões"
Arturo dá um retoque final no matte-painting que transformará o Rio de janeiro na capital Francesa em "Villa-Lobos" ('99)
Arturo Uranga e duas sketches da pré-produção de "era Uma Vez..."

MF - O que o levou a decidir-se por uma carreira na área de Cinema?

AU - Eu nasci em Rosário, naquela época a segunda maior cidade da Argenina (hoje tem cerca de 1000000 de habitantes), mas fui criado na fazenda do meu avô ao sul da província de Córdoba- já que meu pai administrava a propriedade; Minha mãe nos levava ao cinema do povoado mais próximo- cerca de uns 15km adiante- uma vez por mês ou a cada dois meses. Era na época que os cinemas tinham camarotes para as famílias importantes da região, com mesas, cadeiras e até garçom. A gente tomava sorvete em taça de vidro enquanto asistía ao filme. Assim assistí a "O Pássaro Azul" e a "O Mágico de Oz". "O Pássaro...", revi recentemente e percebi que ficou datado e me desapontou, o segundo foi para mim como uma revelação ou iluminação mística, mudou minha vida aos 5 anos! Foi uma paixão louca ao primeiro olhar. Nunca voltei à normalidade: desde aquele dia já sabia o que queria fazer quando adulto. Sim, com só 5 anos. Não se espante, eu tenho lembranças desde os 2 anos de idade. Um monstro. A minha mãe nunca se conformou totalmente pelo filho que lhe tocou. Imagina, aprendi a ler sozinho aos 4 anos e a contar até 100 também! Para mim era a coisa mais normal do mundo. Também não posso esquecer da "Branca de Neve" do Disney visto na mesma época. Perceba que eu nasci no ano de '36 e todos estes filmes eram estréias da época, considerando o que demoravam para chegar ao interior de Argentina. Eu nasci artísticamente baixo a influença astral destas belezinhas; não é de estranhar que depois, já adulto, fosse me dedicar ao desenho animado e ao filme fantástico. "Era uma vez..." está cheio de homenagens a estes filmes, especialmente a "O Mágico de Oz". Também tive como Antonio Luiz Mendes- Diretor de Fotografia de "Guerra De Canudos", "Ópera Do malandro", "A Menina Do lado", etc- meu velho amigo, um projetor 16mm. e também ainda lembro do cheiro da tinta quente. Da próxima vez que encontrar com ele terei novo tema de papo, bacana.

MF - Como expert em Glass -Paintings e trucagens "à moda antiga", como o senhor vê o uso de efeitos visuais de computação gráfica ficarem cada vez mais freqüentes no Cinema Nacional? Isso pode vir a pôr o seu trabalho e técnica em desuso?

AU - Marco amigo, vejo que vc me conhece pouco. Já venho lutando para o uso dos Efeitos em Computação Gráfica há séculos. Eu só pintei em vidro a torre Eiffel porque Zelito Viana (Diretor de "Villa-Lobos", "Avaeté", "O Doce esporte do Sexo", etc), insistiu. Por outro lado, depois dos vidros de "O Trapalhão e o Raio Azul" eu fiquei definitivamente traumatizado. Imagina, carregar e filmar vidros de quase dois metros de comprimento e um de altura até o alto das Agulhas Negras, três mil e tantos metros. Que experência de pesadelo! Não morri de infarte porque parece que Deus me ama, se bem não mereço. Jurei não pintar mais vidros na minha vida! E eu suplicando para fazer em CG, no meu humilde Pentium com ar condicionado e uma cervejinha na mão. Vai ver o "Copacabana"- atualmente em fase de finalização- de Carla Camuratti e veja do que é capaz ainda este dinosauro em CG. Marco, eu não fui formado em "vidro", eu re-inventei o tal porque ninguém fazia, de puro louco e corajoso. Jorge Duran (diretor de "A Cor do Seu Destino", de '85, onde inauguramos a técnica do matte-painting no Cinema nacional) me perguntou se eu sabia como fazer e eu honestamente lhe respondi que não, mas que estava nos livros e que não devia ser difícil. Apenas isso. Lembra que eu adaptei estas tecnologias para a TV a pedido da TV Globo, e "matte-painting" é "matte-painting" não importa a técnica que vc use. E assim vou atrás de tudo o que é novidade e incentivo isso nos meus cursos. Então, deixa que o futuro chegue que estou a sua espera. Sabe qual é o meu maior desapontamento com o 2000? Não estar vestido como Flash Gordon e não ser dono de uma pistola de raios. Me sinto enganado pela história. Continuamos na mesma merda de sempre.

MF - Como foi o seu processo de criação na feitura de "Era Uma Vez...", um filme raro na filmografia nacional, destinado ao público infanto-juvenil sem ser infantilóide?

AU - Foi o resultado de uma bebedeira de Natal! A gente era uma família pequena aqui no Brasil: só minha esposa, eu e dois filhos. Então na noite da véspera de Natal comvidávamos a todos aqueles que andavam meio "drifters", perdidos ou solitários nessa noite, aí virou tradição acabar a noite na "Casa dos Uranga". E naquele Natal de 1990 , época funesta da era Collor, estava na moda nos meios de comunicação quebrar pau no cinema nacional: que ninguém gostava, que não prestava, que cinema novo era um saco, etc., etc. Aí Eduardo Felipe ("Grilo" no filme) e Rodrigo Pena (o "Grude" de "Era Uma Vez", também visto em "Mauá" e "Doces Poderes",) que estavam em casa com o meu filho Pablo ("Príncipe Tudur"), começaram a me aporrinhar para criar uma coperativa e fazer um filme de aventuras, fantástico, que todo mundo curtisse, etc. No mês de Fevereiro de '91, sem um roteiro acabado, já estávamos ocupando o estúdio da Magnus Filmes, graças ao entusiasmo e apoio de Alberto Magno (Argumentista, Ator, Assistente de Direção do já clássico "Eu Matei Lúcio Flávio", de '79), seu dono naquela época. Pura loucura! Da qual não me arrependo se bem tenha acabado com as minhas economias.

MF - Em "Era Uma Vez...", como foi o seu trabalho lado a lado c/o Fotógrafo César Moraes (Assistente de Câmera do Italiano Carlo DiPalma em "Gabriela", Diretor de Fotografia de "No Coração Dos Deuses", etc) na visualização da história? Que tal ser ao mesmo tempo Diretor, Roteirista, Produtor, cenógrafo, etc?

AU - Bem, eu me assumo antes de mais nada como um fabulador. Quero dizer, se eu admiro e respeiro tanto o Neo-Realismo Italiano, o cinema novo e outros estilos naturalistas, é porque eu nunca conseguiria criar uma coisa assim: eu só sei me mexer com fábulas. Um mundo que oscila entre o real e o sonho, um realismo fantástico como gosto de chamá-lo. O mundo, desculpem a heresia de me considerar entre esses monstros, de García Marquez, Borges, Umberto Eco, Robert L. Stevenson, Sábato, H.G. Wells, Kurosawa, Bergman, Lang ("M-O Vampiro de Dusseldorf", "Diabo Feito Mulher", "Metropolis",etc), Murnau ("A Última Gargalhada", "Aurora", "Nosferatu"-'21, etc), Maupassant, os uruguaios Roberto Arlt e Horacio Quiroga, Cocteau, Whale -Oh, amado James Whale ("Frankenstein"-'30, "O Homem Invisível"-'33 e "Noiva De Frankenstein"-'35)! Um dos grandes crimes do cinema americano- e muitos outros. E sempre, é lógico e antes de mais nada, meu irmão Orson Welles ("O Processo"-'62, "A dama de Shangai", "Cidadão Kane", etc)...sabias que ele era do dia 6 de maio e eu sou do 4? Se acreditas em astrologia... Então, quando eu crio um projeto, ou seja uma nova fábula, todo está interligado, todo faz parte de um todo. Eu curto muito meu inconsciente e durante a fase de criação eu o deixo fluir livremente, sem pudores, sem auto-censuras. Tanto quando pinto como quando faço cinema. Tudo quanto faço permite uma segunda leitura, e as conclusões que vc tire, posso lhe assegurar, estarão certas. Eu gosto muito de Jung e sua teoria dos arquétipos. Eu trabalho com arquétipos. E então a minha obra sai como um todo. Eu sou, antes de mais nada pintor, e eu vejo antecipadamente as cenas, o aspecto e psicologia dos personagens, seu figurino, os cenários e paisagens onde atuarão, a sua atmosfera, a sua luz. Muito antes de finalizar o roteiro, ja fiz um monte de desenhos conceptuais, rabiscos e até artes a cores, storyboards, etc. Lembre que no Cinema sou muito procurado como Desenhista de produção: "O Romance da empregada..." e "O Que É Isso, Companheiro" do Bruno Barreto, "Quilombo" de Cacá Diegues, "Villa Lobos" de Zelito Diana, "No Coração Dos Deuses" de Geraldo Moraes, etc. e também Diretor de Arte premiado como em "Noite" de Gilberto Loureiro e no teatro já fiz cenografias e figurinos, como em "O Casaco Encantado", "A Bela E A Fera", "Toda Moça Tem Um Pai Que É Uma fera", "Amor Bruxo", etc.) E então, é lógico, que não exista conflito entre todos esses "chapéus", especialmente se é meu filme, meu filho, meu parto. Isso não tira a importância e colaboração criativa dos cenógrafos, figurinistas, maquetistas, cenotécnicos, que trabalhem comigo. Por Deus, eu os amo! São eles que possibilitam, engrandecem e materializam o meu sonho, o meu mundo mágico. Eu aprendi isto de John Huston: quando encaro um novo projeto procuro uma imagem pictórica que o defina. Algúm pintor, talvez um estilo de pintura. Como sou um cara bastante conhecedor da História da Arte,usei como base as antigas ilustrações européias dos contos de fadas, e dividi o filme em três partes:A primeira:Mais pastoril, mais solar, inspirado na luz e cores de Pieter Brueghel, o velho, pintor que amo. O figurino de "Grude" é roubado diretamente dele. Segundo:A magia das ilustrações tradicionais inglesas; Terceiro:Totalmente Isabelina, ou seja, inspirado na Isabel I de Inglaterra somado e uma homenagem mais do que assumida do requinte de Jean Cocteau e seu filme que amo, "A Bela e a Fera", e que inspirou também ao desenho da Disney. Toda a luz do filme, a meu pedido, foi "back-lit" (iluminado por trás, luz do fundo para fora) no melhor estilo académico hollywoodiano dos anos 30 e quarenta, e muito filtrada com a cor ambar e difusores para criar uma pátina de verniz tipo pintura antiga. A maravilhosa fotografia de César Moraes, foi premiada em Venezuela e inspirou a posterior fotografia de "Carlota Joaquina".

MF - Trabalhar c/crianças e animais é um sufoco, já dizia um velho ditado de Hollywood"; Logo no seu primeiro filme como realizador -e acumulando várias outras funções- o senhor 'enfrentou este obstáculo'. Como foi o seu processo de Direção de Atores?

AU - Coitadas, as 25 crianças que fizeram a cena da cachoeira sofreram mais comigo do que eu com elas! Foram uns anjos de paciência e tolerância. Fazia um frio de loucos, a água estava gelada, a luz ia embora, todo mundo gritando nervoso e eles aí rindo e brincando como se estivessem felizes. Pobrezinhos! Fizeram tudo direitinho e é de eles toda a glória dessa cena maravilhosa! Bichos? Sim, me lembro na cena da granja onde deviam aparecer um monte de bichos. Fabio Leandro, valoroso encarregado da produção e muito competente, me surprendeu com toda a bicharada que conseguiu para a cena. Lembra que trabalhávamos com pouquíssimo dinheiro. Entre os bichos uma porca gigantesca com seus filhinhos de meter medo e de péssimo humor. No primeiro ensaio a porca teve que ser arrastada fora, por três pessoas pelo menos. Tentamos manter para a cena a filharada: uns porquinhos fofos e rosados. Pra quê! Foi uma hecatombe! A porca nos atacou arrastando os que a prendiam, os porquinhos pulavam e fugiram derrubando a cenografia do "porchile" ,cito Pasolini (Diretor de "O evangelho Segundo São mateus", "Pocilga", "Saló", etc) os gansos -belíssimos!- fujiram aterrorizados, todo mundo também saiu correndo atrás das galinhas . Um caos! A minha granja ficou tão despovoada como aparece no filme. Com os atores sigo também o estilo de John Huston (dos clássicos "Aventura na África", "`A Sombra de Um Vulcão", "O Homem Que Queria Ser Rei", etc) Não gosto de ensaiar antecipademnte para não tirar a espontaneidade e a paixão do momento. Exijo que o texto esteja memorizado, deixo que eles passem esse texto enquanto são vestidos e maquiados, mas peço para que não intentem atuar ou impostar as falas. Como eu trabalho com storyborad e, tendo toda a equipe uma cópia dele, é maravilhoso chegar no set e ver que já a câmara está mais ou menos onde vc pretendia coloca-la, a luz é mais o menos o que vc queria. Trabalho com uma luz base e constante em toda a cena. Só as vezes um pequeno reforço ou recorte. Poupa tempo aos montes. Os atores chegam, dou um descanso ao pessoal da pesada, fico com o Diretor de Fotografia, o Câmara e pouco mais. Falamos da cena con os atores e peço para eles fazerem um ensaio livre, do jeito que eles gostariam Acompanho de fora com o Fotógrafo e o storyboard na mão, estudando a colocação da câmara. Se não estou satisfeito com alguma emoção ou movimento, falo com os atores e sugiro coisas. Repetimos o ensaio. Se algum ator se sente mal com seu texto, usaria outras palavras, acha que o seu personagem agiria diferente, peço-lhe para fazer do jeito que achar. Geralmente melhora a veracidade da cena. Se duvido, filmo as duas opções. Em fim, ensaio muito, com os atores e com a câmara. É beneficio. Quando vc entra a filmar tudo sai de primeira e às disparadas. Acredito como Spielberg que a primeira tomada é sagrada. Difícilmente vc recupera a força e beleza de uma primeira tomada perdida.

MF - "Noite"('84-'85) é um dos filmes Brasileiros mais premiados dos últimos 20 anos. Como foi a sua experiência como Produtor no filme?

AU - A minha empresa de então, a Arturo Uranga Produções Cinematográficas entrou como Produtora associada no filme e também fizemos todo o material de divulgação do filme: cartazes, stills, créditos do filme, etc. Em "Noite" também fui responsável pela Direção de Arte do filme e fui premiado no primeiro Rio-Cine Fest em '85. Foi um trabalho que meu deu muitas satisfações, também por que o Diretor Gilberto Loureiro, havia iniciado-se no Cinema comigo e toda a equipe, além de excelente estava bem entrosada. Foi feito com poucos recursos financeiros e ainda assim foi convidado para o Festival de Berlim! Merece ser visto!

NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo www.sitedecinema.com.br para ilustrar os talentos citados.  

Visite conteúdos de outras edições