Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

A visão ao mesmo tempo cosmopolita e muito enraizada na cultura Brasileira do nosso entrevistado desta semana, o Produtor de Cinema Cláudio Kahns, pode ser "vislumbrada" a partir do seu background cultural, que abrange desde um fascínio pelos estudos de Sociologia e Política em Sampa, passando por anos de intenso aprendizado na Universidade de Vincennes, na Ècole Pratique des Hautes Etudes e na Ècole des Beaux Arts na França até por sua passada na Escola de Cinema de SP (ECA).

Numa conversa recente, o Produtor de obras como a ambiciosa Super-Produção "Brasil 1500" (em parceria com Ilya Salkind, responsável pelos sucessos de público e bilheteria "Os Três Mosqueteiros"-'74, "A Vingança de Milady", "SuperMan", etc)- em pré-produção e do ainda inédito documentário de longa-metragem "Sobras em Obras" dirigido pelo Suíço Michel Favre- conversou com o www.sitedecinema.com.br

Marco- Como o Cinema entrou na sua vida?

Cláudio- Meu pai tinha uma filmadora 8mm e costumava filmar a família...mais tarde, lá pelos meus dez anos, eu comecei a fotografar com máquina fotográfica, logo, comprei uma câmera8mm para mim; Daí não parei mais! Mais tarde, no colégio onde estudava, conheci um colega, Carlos Calil (mais tarde presidente da Embrafilme). Juntos, decidimos tornar um Roteiro do Calil em curta, rachando as despesas de produção... o filme só foi finalizado dois anos depois, já que só filmávamos nos fins-de-semana.

Cláudio em foto de 2001
Os jovens Flávio Guarnieri e Nice Marinelli estrelaram "Janete" que foi um dos finalistas ao Kikito de Melhor Filme no Festival de Cine de Gramado-'83; O drama, filmado no início de '82 conquistou os Kikitos de Melhor Música Original (p/Arrigo Barnabé) e Melhor Direção de Fotografia ("José R. Eliezer)

MF- Qual era o nome do Curta?

Cláudio- "Ilusência", rodado em 16mm, e eu fui Fotografo e Co-Produtor; Estudando em Paris, Trabalhei em alguns projetos de Cinema entre '71 e '75. Lá também eu já havia organizado duas mostras de Cinema Brasileiro e Latino-Americano, no Cinema Olympic, nos anos de '74 e '75. Na minha volta, entrei na Escola de Cinema da Universidade São Paulo e fiquei estudando alguns anos e ao mesmo tempo trabalhando...

MF- Trabalhando na área de Cinema, também?

Cláudio- Fui programador de Cinema, organizando mostras de filmes na Cinemateca Brasileira e trabalhei na Biblioteca Infanto-Juvenil da Prefeitura de São Paulo.

MF- E como foi a sua entrada na realização, propriamente dita, de filmes? Eu conheço os teus créditos como Produtor, mas também trabalhastes em outras funções por detrás das câmeras aqui no Brasil?

Cláudio- Em '74, eu fiz um curta chamado "Do Outro Lado..." ainda na França, e mandei para o Brasil para concorrer no Primeiro Festival do Filme em SUPER 8mm, organizado pelo Sílvio Back (Diretor Catarinense dos clássicos "Aleluia, Gretchen", "Lance Maior", "A Guerra dos Pelados", etc), e o filme ganhou! Chegando ao Brasil, eu dirigi um outro curta, em '79, chamado "O Sonho Não Acabou" (não confundir com o homônimo longa de Sérgio Rezende rodado em '81), sobre o teatro anarquista feito pelos Imigrantes Italianos em São Paulo. "O Sonho..." foi premiado pela FunArte, que me deu um prêmio-estímulo. Depois eu co-dirigi com o Antonio P. Ferraz,um documentário de 52 minutos...

MF- Lá por '79, certo?

Cláudio- Isso! Eu conheci o Antônio quando pesquisei material histórico para o documentário "Os Anos JK", dirigido por Sílvio Tendler ("Castro Alves- Retrato Falado de Um Poeta", "O Mundo Mágico dos Trapalhões", etc), ele também fazia parte da equipe. Ficamos amigos e aí aconteceu um crime numa fábrica do (bairro operário) Braz: o advogado da empresa tinha assassinado um operário de nome Jesus. O Santo Dias, que era líder operário importante ligado `a igreja, nos deu uma depoimento comentando a morte do Jesus. Além dele, registramos vários outras cenas sobre o assunto...Passados alguns meses, eu estava no centro de São Paulo e ouço que a PM havia assassinado um metalúrgico durante um confronto...eu fui até a Igreja da Consolação, havia fazendo uma manifestação popular e lá dentro, me deparei com o Santo Dias num caixão!! O filme, então, passou de um documentário sobre UM assassinato para uma verdadeira investigação antropológica sobre esas tragédias... e chamou-se "Santo e Jesus, Metalúrgicos". Levamos anos para completar o filme...que foi finalizado somente em '84, pelo Carlos Calil, pois acompanhamos tanto as investigações da morte do Jesus como a do Dias...o processo arrastou-se durante anos, não deu em absolutamente nada...foi realmente uma experiência muito triste... mais tarde, o filme foi premiado na Jornada de Cinema da Bahia-'85

MF- A impunidade deve ter sido o único acontecimento que não os surpreendeu naquela época...

Cláudio- Na época paralelamente à faculdade, eu também fiz umas reportagens para a TV estrangeira, e trabalhei com o Adrian Cooper (Diretor de Arte de "Marvada Carne"/Fotografia de "O País dos Tenentes", "Anahy de Las Missiones", etc). Também cheguei a trabalhar com Leon Hirszman (Diretor de "São Bernardo", "A Falecida", "Eles não Usam Black-Tie", etc > '38-'87) no longa "O ABC da greve", finalizado anos depois pelo Calil. Eram bicos, mas davam experiência e rendiam algum dinheiro. Em função disso, começamos a sentir a necessidade de ter uma produtora, pois nos faltava uma estrutura, aí chamamos pessoas como o Chico Botelho (Diretor de "Janete", "Cidade Oculta"/Fotógrafo de "O Evangelho Segundo Teotônio"> '48-'91), Wagner Carvalho (Diretor de Produção de "O Baiano Fantasma", "Avaeté- Semente da Vingança"), que havia trabalhado comigo em "O Sonho...", o talentoso Mário Mazetti, Alain Fresnot (Diretor de "Ed Mort", "Lua Cheia"/Montador de "O Homem Que Virou Suco", etc) e o Walter Rogério (Som em "Janete", "A Ilha dos Prazeres Proibidos"/Direção de "O Beijo 2348/72"). Assim, abrimos a TATU FILMES, juntando cada um os equipamentos que tínhamos. Eu por exemplo tinha um (equipamento de gravação de som) Nagra e uma câmera de 16mm, o Chico tinha uma câmera de 35mm, o Mário era dono de um Nagra, etc Aí foi uma loucura: começamos a ajudar e participar em vários projetos, sobretudo filmes de treinamento, comerciais, assim, bancamos a TATU por muito tempo.

MF- E os seus trabalhos em longas?

Cláudio- "Janete" ('82) foi o primeiro projeto importante em ficção que fizemos.

MF- É uma pena que pouca gente conhece o filme.

Cláudio- Este filme foi de grande importância para a nossa produtora, pois mostramos que podia-se fazer um Cinema em São paulo com boa qualidade técnica e artística. Assim, "Janete" (dirigido por Chico, montado por Alain e sonorizado por Rogério) ajudou a consolidar a TATU como Produtora de longas, claro que contamos c/a ajuda financeira da EmbraFilme, mas usamos os nossos equipamentos, e notamos que poderíamos fazer os nossos próprios projetos. E como eu e o Botelho éramos Presidentes de Associações Cinematográficas de São Paulo, meio que a política de Cinema e as articulações na área rolavam no escritório da Tatu na Vila Madalena. Defronte tinha até um bar, 'Martin Fiero', que por sinal visitávamos muito (risos). Em seguida, logo depois do "Janete", em '83, o Cineasta André Klotzel ("Capitalismo Selvagem", o ainda inédito "Memórias Póstumas", etc) nos procurou com o Roteiro do "Marvada Carne", que eu considerei de cara um grande achado; Só que o Roteiro não estava pronto, faltava ainda costurar a história...o André sabia disso. Chamamos então o...

MF- Carlos Alberto Sofredini (Roteirista do famoso "Árvore dos Sexos", de '76-'77), certo?

Cláudio- Exatamente. Ele foi fundamental pois costurou toda a trama...claro que o mérito principal é do André q trouxe o Roteiro não pronto mas desenvolvido, que afinal era muito divertido, e me fez logo achar que iria dar super certo.

MF- "Marvada..." ganhou uns treze prêmios ao todo, certo? Em Gramado '85, e foi convidado oficial de Festivais como o de Mill Valley, Los Angeles, Havana, México, Tyneside, Aurillac, San Remo, Moscou, etc Cláudio- Aí foi o seguinte, Marco: produzimos o filme em '85 e o levamos para o Rio, faltando um rolo! De repente termina a projeção, o filme não estava terminado, mas já estava selecionado e aí tivemos que aprontá-lo para o Festival que estava bem próximo! Ficou pronto um dia antes (risos) de ser apresentado! A recepção foi maravilhosa...o público adorou!!! Aí fomos para Cannes, na Semana da Crítica, contrariando alguns que achavam que o filme era regional demais, que faria sucesso só no Brasil...e foi muito bem recebido na Europa, muito mesmo. O "Marvada..." provocou internamente na TATU alguns atritos; não exatamente o filme, mas já vínhamos há algum tempo com problemas entre os sócios, eu começava a receber várias propostas para produzir filmes, e divergências aconteceiam na ordem de quem teria o seu projeto realizado, quem iria fazer o que, alguns de nós queriam seguir com os seus próprios projetos, ficou ali um certo ressentimento interno...e eu estava administrando a TATU com muita dificuldade, como sempre, para conseguir manter aquilo tudo estava exigindo muita ginástica financeira. Considerando que já estávamos a cinco anos juntos, e as dívidas acumulavam-se ("Marvada..." ainda esperava distribuição nas salas exibidoras do país- demorou um ano para ser lançado- mesmo depois das excepcionais acolhidas em exibições especiais ao redor do planeta e as premiações em Gramado), faltava um 'peso político' para a TATU forte o suficiente para impormos datas de lançamento no mercado, ainda tínhamos que nos adequar às datas disponíveis para lançamentos...

MF- Os filhos pródigos eram, ANTES DE TUDO, filhos, certo?

Cláudio- (risos) Isso mesmo. No final de '85 eu fiz uma proposta de me responsabilizar pelas dívidas e a gente se separou, cada um foi para um lado. Foi muito chato e dolorido, mas era o que precisávamos fazer... cada sócio saiu com uma parte e eu continuei com a TATU.

MF- Foi aí que começastes a produzir o "Feliz Ano Velho"?

Cláudio- Isso mesmo. Não..espera aí...eu então fui ser Produtor Executivo do "Vera".

 
Marco Breda ("Verdes Anos", "For All", "Quero Ser Feliz", etc) e Malu Mader ("Rock Estrela", "Dedé Mamata", o ainda inédito "Bellini E A Esfinge")

MF- A protagonista Ana Beatriz Nogueira ("Jenipapo", "Villa-Lobos", etc) foi premiada em Berlim e Brasília...

Cláudio- Sim, foi. Nesse caso, não era uma produção da TATU, o Sérgio Toledo (Diretor/Produtor/Roteirista do filme) me chamou para trabalhar no filme.

MF- O Sérgio havia co-dirigido o polêmico curta "Braços Cruzados, Máquinas Paradas" com o Roberto Gervitz em '79. Foi naquela ocasião em que conhecestes os dois (Gervitz dirigiu "Feliz...", etc)?

Cláudio- Abrindo um parênteses e voltando um pouco, eu me esqueci de te contar que em '77 eu havia sido Repórter do jornal 'Folha de São Paulo', na Ilustrada (encarte cultural), e era muito amigo do Editor-Chefe do jornal, Cláudio Abramo, que já tinha até passado um tempo comigo na França. Naquela época, fiz uma matéria com o Toledo e o Roberto, que gostaram muito. Anos mais tarde surgiram essas oportunidades de trabalharmos juntos. Em relação ao "Feliz Ano Velho", eu primeiro quis comprar os direitos do bestseller do Marcelo R. Paiva, só que quando eu liguei para ele, fui informado que estava uma semana atrasado, que os direitos haviam sido adquiridos pelo Gervitz (Diretor de dublagem da versão Brasileira de "O Beijo da Mulher-Aranha", Diretor de Segunda Unidade de "Brincando Nos Campos do Senhor", etc). Um ano depois o Roberto me procura, propondo trabalhar com ele no filme (risos). Ao ser convidado eu respondi que produziria o filme com o maior prazer!" (risos)

MF- Quando o filme "O Judeu" (vencedor do Prêmio de Melhor Filme no Festival de Brasília '95) entrou na tua vida?

Cláudio- Em meados de '86. Eu já havia dissolvido a sociedade com o pessoal na TATU, e o Jom Tob Azulay (Diretor de Fotografia de "Muito Prazer", Diretor de "Corações A Mil", etc) falou comigo e disse que estava indo para a Holanda mas que eu ficasse preparado pois uma pesquisadora daria uma conferência no MASP sobre a Inquisição, que era o tema do filme. O Azulay me disse que o filme teria que ser rodado em Portugal e eu que adoro aquele país, gostei da idéia, aquele tema muito me interessava na época...

MF- "O Judeu", parou as filmagens por vários anos acabou tomando bem uns 10 anos na sua vida, certo?

Cláudio- P(*)! Foi brabo! Eu vinha de uma trilha bastante boa em termos de produção, mas "O Judeu" apresentava alguns problemas potenciais para a sua realização: o relacionamento com Portugal era muitíssimo complicado, tinha uma questão de ciúmes, relativa a 'o que esse pessoal de fora vem aqui para Portugal contar a NOSSA história?', entende? depois também viemos a saber que o tema de persegução aos Judeus em Portugal trazia problemas de constrangimento, assim, pessoas de poder na mídia Portuguesa eram contra a visão que passávamos do seu país. Mas, ao mesmo tempo, tenho que dizer, recebemos um apoio importante do Governo e de alguns líderes políticos da época...

MF- Ficastes viajando a Portugal com grande freqüência então?

Cláudio- Durante um pouco mais de um ano, sim, era necessário para eu estar lá para armar e acertar a produção e seus detalhes...depois, ficamos parados por um bom período, a Embrafilme não era muito favorável, era a primeira Co-Produção entre Brasil e Portugal...naquela época, o máximo de intercâmbio que havia entre os dois países eram exposições de artes plásticas no Cassino de Estoril, e coisas do gênero, sabes? Sem contar até no vigente distanciamento afetivo que eles nutriam com muita mais força naquela época por nós, pois havia naquele momento o início da integração européia e a ligação com o Brasil não interessava a muitos setores do governo. Então, por ocasião da ida do (então Presidente) Sarney a Portugal, conseguimos colocar na pauta um acordo de co-produção - o Judeu seria a primeira co-produção entre os dois países, já dentro deste novo parâmetro - e promover a nossa intenção de promover um intercâmbio cultural entre os dois países; Mais tarde, o Presidente Português na época, Mário Soares, veio ao Brasil e daí assinamos um convênio com a Embrafilme que finalmente nos ajudou com a grana para fazermos o filme. Uma vez na Europa, começamos a perceber que a quantia planejada de U$1.000.000 era muito pequena para o projeto...o orçamento necessário logo inflou para quase o dobro. E daí tivemos que parar por dificuldades financeiras, até boatos de muita má fé circularam que eu havia desviado verbas, foi realmente um período desagradável para mim. Tive que ir lá, me defender, mostrar as contas todas, foi horrível, até os diretores da Embrafilme, lavaram as mãos, comportando-se pessimamente.

MF-Vale-se dizer que um filme de época, daquele porte, não seria feito em local nenhum do mundo por menos de 04 vezes esse custo...

Cláudio- Mesmo com o que conseguimos de apoios, foi muito difícil realizar um projeto ambicioso daqueles com os recursos que tínhamos...o próprio pessoal que trabalhava no laboratório em Portugal aonde assistíamos os copiões, gente acostumada a diariamente ver cenas de vários e vários filmes, apostava que tínhamos gasto muitas vezes mais...até pq a cultura Cinematográfica Portuguesa não usava artifícios como negociar, buscar apoio, etc. que nós no Brasil nos acostumamos a usar, era uma "tecnologia"acostumada a fazer filmes com baixo custo...

MF- Como vocês conseguiram o Diretor de Fotografia Eduardo Serra ("Tango-Dança dos Desejos", "De Corpo Fechado", "Marido da Cabelereira", etc), para fotografar "O Judeu"?

Cláudio- Ela era bem experiente, mas não era tão conhecido como hoje; Foi uma indicação de nosso co-produtor português.

MF- Foi bom trabalhar com ele?

Cláudio- Eu não tenho grandes lembranças não...

MF- Perguntei algo que não devia?

Cláudio- Não, tudo bem...é que a maioria da equipe não comportou-se bem mesmo, eu não guardo boas lembranças...sabias que paramos as filmagens exatamente dez dias antes da finalização? Eu estava de volta ao Brasil tentando angariar dinheiro para acabar o filme, ainda faltavam U$200.000,00 e tudo isso aconteceu!

MF- Como foi o apoio dado pela comunidade Judaica Brasileira?

Cláudio- Muito pequeno, com as excessões de sempre, das poucas pessoas que normalmente auxiliam...

MF- E Depois de "O Judeu"?

Cláudio- Entre outras atividades, fui Assessor Especial do Fernando de Morais na seu mandato como Secretário de Cultura, e implementei uma política de cinema na Secretaria de Cultura daqui de São Paulo. No momento estou viabilizando uma co-produção com a Suíça sobre a invasão Francesa no Maranhão durante o século 17.

NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo www.sitedecinema.com.br para ilustrar os talentos citados.  

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