Gente de cinema em depoimentos EXCLUSIVOS para o site.

Seja montando,dirigindo,sonorizando, produzindo, e/ou escrevendo filmes que marcaram a história recente do Cinema Brasileiro, o multi-talentoso EDUARDO ESCOREL tem o seu nome associado, desde o início dos tumultuados anos 60, a filmes que maracaram a história recente do Cinema Brasileiro. Curtas como "Chico Antonio, o Herói Com Caráter"('83), "Século XVIII: Colônia Dourada"('94) ou Longas como "O Bravo Guerreiro"('68), "Os Inconfidentes"('72), "Os Condenados"('73), "Guerra Conjugal"('74), são apenas uns dos títulos em que trabalhou. Confira abaixo alguns dos melhores momentos da entrevista que ele deu para o site.

MF- O seu primeiro trabalho p/Cinema foi em "O Desafio" (clássico de Paulo C. Saraceni- Diretor de "Porto das Caixas", "Capitu", "Achieta, José do Brasil", etc) em '64, como Técnico de Som (!), certo ?

Eduardo- (risos) De fato, eu começei em Cinema, mexendo um pouquinho com som, por essa época...

Eduardo na década de 80, durante as filmagens de "O Cavalinho Azul"

MF- Como se deu esse seu início no meio Cinematográfico?

Eduardo- Na minha casa, o Cinema era uma coisa valorizada pelos meus pais, como espectadores. Havia também, naquele momento, por volta de '60, uma certa efeverscência em torno, não só do Cinema em si, mas em torno de um Cinema feito por jovens, com a influência da Nouvelle Vague e também havia uma ligação entre a sétima arte e fazer Cinema, ser militante, etc. daí eu fiz um curso com o Arne Sucksdorff ('17-2001> Cineasta natural de Estocolmo, Diretor de "Gryning", "Mitt Hem Är Copacabana", "Mr. Forbush & The Penguins", etc) em '62, quando ele trouxe um dos primeiros gravadores de Som Nagra ao Brasil. Na verdade, aprendi a ligar e desligar o gravador. E daí virei Técnico de Som (risos). Gravei o som para a finalização de "Garrincha, Alegria do Povo"('63), "O Desafio", que você citou, etc.

MF- Fizestes a Edição de Som nesses filmes também?

Eduardo- Não. Nos anos 60 não havia propriamente essa função como uma especialidade. Naquela época, a Edição do som dos filmes era feita pelo próprio Montador do filme. Mas esse meu primeiro contacto como Técnico de Som foi bastante curto, pois logo fui fazer Assistência de Direção de "O Padre e a Moça" (' 65), do Joaquim Pedro de Andrade ('32-'88> "O Poeta do Castelo", "Mestre de Apicucos", "O Homem do Pau-Brasil", etc). "O Padre..." foi o primeiro filme que eu montei, fiz a montagem junto com o Joaquim Pedro, praticamente na posição de aprendiz! Eu aprendi muito com ele, que já era um veterano Documentarista , inclusive com experiências no exterior. Em '66 começei a dirigir (Co-Direção c/Julio Bressane), realizando assim o documentário "Betânia Bem de Perto", com meia hora de duração.

MF- Como foi a sua experiência montando "Terra em Transe" ('66), certamente um dos filmes mais lembrados da carreira de Glauber Rocha ("A Idade da Terra", "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", etc) e do movimento cultural Cinema Novo?

Eduardo- Esta foi para bem dizer, a minha grande oportunidade em Cinema, pois era uma obra muito interessante de se montar, com muitas possibilidades de interpretação na Montagem, com muita liberdade por parte do Gláuber na maneira de organizar o filme, então foi uma grande experiência e uma grande escola que eu tive.

MF- Como foi montar um dos filmes mais ilustres do UnderGround/Udigrudi Brasileiro, "Cara a Cara"('67) do 'maldito' Júlio Bressane (Co-Montador de "Menino de Engenho"/Diretor de "Matou a Família e Foi ao Cinema" -versão original, filmada em '69, "Tabu"-'82)?

Eduardo- Eu e o Júlio somos contemporâneos, apesar de eu ter iniciado no Cinema um pouco antes dele, nós já tinhamos trabalhado juntos, numa equipe de dois(!), no Documentário da Betânia e eu já tinha montado o curta dele "Lima Barreto-Uma Trajetória" (' 63). Éramos na época, muito amigos, e tudo correu bem.

MF- Para mim é impossível definir o seu 'Estilo' de montagem, pois o senhor parece mudar de gênero de filmes com bastante freqüência, adaptando-se até de forma camaleônica a obras de conteúdos, aparências e narrativas bastante específicas. Como foi trabalhar no alegóríco "Macunaíma" ('69)?

Eduardo- Olha, eu não acredito num ESTILO de Montagem ou de Montador; Para mim, o profissional dessa área deve adaptar-se ao estilo de cada filme e à visão do Diretor. O que existe é um Diretor diferente do outro, um projeto diferente do outro, O Gláuber, por exemplo, era uma pessoa que reinventava os seus filmes a cada etapa, fazia várias versões do Roteiro, quando ele filmava, as coisas já estavam diferentes do que havia sido escrito originalmente, e na Montagem, a obra acabava ficando diferente do que já havia sido filmado. Já o Joaquim (que também dirigiu "Macunaíma"), gostava de mudar muito de temática de projeto para projeto, mas os seus filmes obedecem a um planejamento maior; Quando ele escrevia, pensava na filmagem. Quando filmava, pensava na Montagem. O processo dele era mais de seleção, de depuração progressiva. "Macunaíma" não foi muito, como posso dizer, 'criado na Montagem'...tudo já estava bem planejado, pois o Joaquim era uma pessoa extremamente cerebral, racional. Quando eu trabalhava com ele, a Montagem já vinha com o seu rumo quase que traçado tanto pelo Roteiro quanto pela filmagem.

MF- E em '69, montando para o mesmo Gláuber o premiadíssimo "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", que apesar de ter o mesmo Diretor, é completamente distinto quanto ao seu ritmo e estilo?

Eduardo- Eu já tinha, nessa época, mais experiência, mas é realmente um filme bem diferente do "Terra...". Era menos livre, diríamos assim do que o anterior, seguia mais uma linha...

Eduardo também dirigiu os documentários "'32- A guerra Civil", "Ulysses, Cidadão" além de montar o emocionante "Cabra marcado Para Morrer" nos anos 80; Lecionou na disputadíssima Escuela Internacional de San Antonio de Los Baños, Cuba e foi Diretor de Operações da Embrafilme e Presidente da Associação Brasileira de Cineastas (ABRACI)

MF- De certa forma mais linear, certo?

Eduardo- Falar em linearidade no caso do Gláuber é um certo exagero (risos), mas certamente seguia uma linha diferente dos seus outros trabalhos...e foi interessante montar "O Dragão da..." pois foi o primeiro trabalho do Diretor em Som Direto, foi o primeiro filme de ficção que eu montei realizado feito em Som Direto, com vários dados novos para a Montagem e para a finalização do filme.

MF- Como foi a sua experiência montando "Os Herdeiros"('71), de Carlos Diegues ("Bye, Bye Brasil", "Joanna Francesa", "Quando o Carnaval Chegar", etc)?

Eduardo- O que eu costumo dizer é que a Montagem não salva um filme, mas certamente pode arruinar um filme! Eu também trabalhei c/o Diegues em "Quando o..." em '72 e me dou bem com ele. O que eu sei é que há relações de Montadores com Diretores que variam muito e eventualmente o Montador pode errar na perspectiva, na decifração do material, ter uma relação ruim com o Produtor, e isso pode repercutir no resultado final...mas eu não costumo olhar para trás, Marco.

MF- E a sua estréia como Diretor em longas com "Lição de Amor"('75), um drama quase que unanimamente prestigiado pela crítica Latino-Americana?

Eduardo- Depois de quase uma década como Montador, chegou naturalmente o momento de dirigir o meu primeiro longa de ficção...esse era um projeto meu desde o início, e eu embarquei no projeto com uma certa naturalidade (risos) Eu conhecia apenas de referência o Romance de Mário de Andrade "Amar, Verbo Intransitivo". Em '72, saiu uma reedição do livro, que antes disso era bem difícil de ser encontrado, e eu então li e começei a trabalhar numa roteirização com o Eduardo Coutinho (Diretor de "O Homem Que Comprou o Mundo"/"Co-Roteirista de "A falecida", "Garota de Ipanema, etc), e três anos depois, no início de '75, consegui realizar o filme. Foi um processo natural e tranqüilo, também com suas dificuldades naturais de fazer um filme no Brasil.

MF- Como foi o seu processo de Direção de Atores? Eras um pouco 'verde' nessa área, certo?

Eduardo- Eu tinha uma pequena experiência nessa área quando acompanhei as filmagens- inicialmente como Assistente de Direção- de "O Padre e a Moça", lá eu acompanhei os ensaios do elenco, e também alguns seminários sobre o assunto que eu havia participado. O Elenco adulto, com a Lílian Lemmertz ("As Cariocas", "Corpo Ardente", "Aleluia, Gretechen", etc) a Irene Ravache ("Geração em Fuga", "Amores Possíveis", "Curumim"), Rogério Fróes ("Menino do Rio", "Perpétuo Contra o Esquadrão da Morte", "Sábado Alucinante",etc), por exemplo, era muito experiente e todos me ajudaram muito! Dirigir atores é um tipo de trabalho que eu particularmente gosto muito de fazer. Foi mais difícil com as crianças, e o menino Marcos Taquechel não tinha nenhuma experiência em Cinema...tanto que há controvérsias quanto à atuação dele. Uns criticaram negativamente, outros gostaram. Eu o escolhi mais pelo tipo físico, e naquela época era bastante difícil, ao contrário de hoje, de encontrar-se pré-adolescentes que interpretassem.

MF- Como foi deixar a Montagem nas mãos de outro profissional em "Lição de Amor"?

Eduardo- No Brasil, praticamente inexiste esse negócio do Diretor 'deixar a Montagem para outro'. Participa-se muito daquela fase do filme, e esse trabalho é de colaboração c/o Diretor. Eu apenas, MUDEI DE CADEIRA, e acompanhei de perto o Gilberto Santeiro (Montador de "Uirá-Índio em Busca de Deus", "Tudo Bem", "Avaeté", etc) com quem eu nunca tive conflito algum.

MF- Em '77, realizastes o episódio "O Arremate" (c/Lisa Vieira, de "A Carne-'75, "Amantes Amanhã se houver Sol" e L. Duarte) e da compilação Cinematográfica "Contos Eróticos". Fale um pouco de sua experiência no filme:

Eduardo: Este foi um convite que eu recebi do Produtor, o publicitário César Mêmolo (Co-Diretor da polêmica comédia "Osso, Amor e Papagaios") da Compania de comerciais publicitários LynxFilmes. O César fez um acordo com o pessoal da revista erótica Status (concorrente da Playboy no Brasil na década de 70) e decidiu adaptar quatro contos publicados nela. Para cada adaptação, contratou um Cineasta diferente (os outros foram Roberto Santos, '28-'87>Diretor dos longas "Os Amantes da Chuva", "Vozes do Medo", "Nasce Uma Mulher", etc, Roberto Palmari, de "O Predileto", "Diário da Província" e o meu amigo Joaquim Pedro de Andrade). Para mim, foi um exercício interessante de estilo e de construção de clima e personagens; É um episódio curto, com cerca de 18 minutos e um terço dele sem diálogos. Apesar da maioria da equipe já estar escolhida pelo Produtor eu tive poder de escolha no elenco.

MF-Como foi dirigir o Lima Duarte ("Lua Cheia", "O Crime do Zé Bigorna", "Os Sete Gatinhos", etc), que na minha opinião, tende a superatuar?

Eduardo- Eu acho ele um grande ator! O trabalho do Diretor é de quando necessário aparar algumas arestas, mas quando trabalha-se com grandes atores tudo isso vira um grande prazer.

MF- "Ato de Violência" ('79-'80) é um filme seu que foi bastante mal-lançado nos Cinemas...eu por exemplo, sei da existência dele mas nunca o assisti. Não é disponível em vídeo, é?

Eduardo- Ele já foi exibido na TV, mas não foi lançado em vídeo...é uma pena pois dos filmes de ficção que eu tenha dirigido, é o meu favorito (também foi o único filme dirigido por Eduardo que contou com seu irmão Lauro- Diretor de Fotografia de "Toda a Nudez Será Castigada", "Prova de Fogo", "Dias Melhores Virão", etc- como Iluminador)

MF- Pouco depois, montastes "Eles Não Usam Black-Tie" ('80-'81), dirigido pelo seu amigo Leon Hirszman ('38-'87> "Bahia de Todos os Sambas", "Carnaval do Povo", "Garota de Ipanema", etc), premiado, com, entre outras láureas, o Leão de Ouro em Veneza em '81. Como era a sua parceria criativa com o Diretor?

Eduardo- Nos conhecíamos desde o início dos anos 60, eu montei o "São Bernardo" feito por ele em '72; Ele era um amigão mesmo...quanto ao seu estilo de trabalho, era mais próximo do Joaquim Pedro do que do G. Rocha, por exemplo; Planejava muito antes de filmar, filmava já pensando na Montagem, o tempo todo. Nisso, os seus Roteiros eram mais, como posso dizer, previsíveis que os do Gláuber, pois quando se lia algo do Leon, se conseguia visualizar como o filme ficaria quando pronto...já os Roteiros do Gláuber...(risos)

MF- Em '84 dirigistes "O Cavalinho Azul"...

Eduardo- Eu vinha de um filme muito pesado e difícil, "Ato de Violência", estava naquele momento, precisando arejar um pouco, e eu tinha uma relação muito próxima com (a recém- falecida) Escritora Infantil Maria Clara Machado, ela era grande amiga dos meus pais, e a história "Cavalinho...", era a sua obra favorita. Eu queria poder fazer algo para levar os meus filhos, que eram pequenos na ocasião, para assistir.

MF- Como foi trabalhar em "O Cavalinho..." com o Diretor de Fotografia José Tadeu Ribeiro ("Luzia Homem", "A Cor do Seu Destino", "Besame Mucho", etc)?

Eduardo- O José Tadeu e o meu irmão Lauro começaram praticamente juntos no Cinema, ele é muito próximo da gente! Ele até já foi nosso sócio na Produtora que eu ainda tenho com o Lauro , a CineFilmes). O Tadeu, digamos, 'é de casa'. (risos)

MF- A relação com um Músico quando este COMPÕE uma Trilha feita especialmente para um longa, muitas vezes pode gerar conflitos entre este e o Diretor. Como foi a sua experiência tendo o aclamado Edu Lobo ("Barra Pesada", "O Crime do Zé Bigorna"", etc) como autor da trilha de "O Cavalinho..."?

Eduardo- Eu tive a sorte de trabalhar com três grandes músicos nos filmes que dirigi: O Edu, que você citou, Francis Hime (compôs as trilhas de "A Estrela Sobe", e , em parceria, as trilhas de "A Noiva da Cidade", "Dona Flor e Seus Dois Maridos"), no "Lição de Amor", e o Egberto Gismonti ("Em Família", "A Penúltima Donzela", "As Confissões do Frei Abóbora", etc) no "Ato de Violência". Ao meu ver, as trilhas que eles compuseram para os três filmes que dirigi ficaram excepcionais.

MF- O Roteiro de "O Cavalinho..." foi escrito em parceria com Sura Berdichevsky (atriz de "Os Sete Gatinhos", "Coronel Delmiro Gouveia", "Noites do Sertão", etc), certo?

Eduardo- Sim, ela era muito ligada ao Teatro Tablado e eu queria alguém experiente em lidar com o público infantil; Depois ela me ajudou muito na seleção, ensaio e Laboratório com o elenco infantil do filme

MF- Quais são as suas impressões sobre o filme "Villa-Lobos"(2000), que montastes?

Eduardo- A equipe de filmagem era muito boa, como o talentoso Walter Carvalho (já entrevistado aqui no site/Diretor de Fotografia de "Amores Possíveis", "A Difícil Viagem", "Pedro Mico", etc) que trabalhou com muito empenho junto de toda a equipe de Cenografia...o material para eu trabalhar era interessantíssimo, bem como o Roteiro do Joaquim Assis (Co-Roteirista de "Cassy Jones, O Magnífico Sedutor", "É Simonal", "For All", etc) que estava bem delineado, propondo um caminho aberto para uma narrativa cronológicamente bastante livre e que a própria música servia como um elo de transição entre diferentes períodos. Foi um desafio muito grande para mim,que por sinal estava já algum tempo sem montar nenhum projeto. Recentemente, eu voltei a descobrir o lado lúdico de montar, quando fiz três projetos um-atrás-do outro: o "Villa-Lobos..", e os documentários "Fé" (Documentário do aclamado Ricardo Dias, de "No Rio das Amazonas", recém-lançado, depois de breve passagem pelos Cinemas, em vídeo) e "O Chamado de Deus" (Documentário sobre a iniciação religiosa de alguns Brasileiros, dirigido pelo - já entrevistado aqui- José Joffily, o Cineasta de "Quem Matou Pixote?", "Urubus e Papagaios", "A Maldição de Sampaku", etc). Todos montados em equipamento não-linear (Montagem computadorizada) de última geração Avid.

NOTA: As informações entre parênteses foram colocadas pelo www.sitedecinema.com.br para ilustrar os talentos citados.  

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